quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

DE PALAVRAS E SILÊNCIOS


    














Desde que cheguei a Madrid, tento ser um pouco surda. Se, cuido em ouvir tudo o que passa, ensurdeço de vez. Como falam os espanhóis! Tento não ser engolida pelas ressonâncias do que ouço, mas devo confessar que me encantam as pessoas. O povo tem a arte de imaginar, de tornar novas as coisas, de puxar água, puxar sonhos, puxar as palavras e escrever a vida em cartazes, em papel jornal e levar a outros para que sejam lidos os verbos dos sentidos e seja avultada a parte humana da humanidade. Os espanhóis cuidam em ser mais humanos do que nós. Não, não é bem isso o que eu quero dizer. O que ocorre é que os espanhóis têm na palavra uma carga lexical que me humaniza, me desarma, além de me afundar num romantismo tardio, inexplicável. Parecem falar com a voz que está detrás da voz. Com a voz verdadeira, aquela que espera uma resposta e está interessada nela. Isso me faz mover o corpo, limpar a garganta antes de acionar o canal da minha primeira pessoa do singular. É bem mais fácil falar por um canal coletivo, com idéias pensadas, experimentadas, comprovadas... mas os espanhóis arrancam todas as minhas capas. Que capacidade têm para chegar ao âmago da intenção. Até minha capa literária é rasgada de alto a baixo.  Será que estou perdendo a literatura para a vida real? Alguém disse que a vida real não existe, tudo é literatura. Aqui sinto o contrário, tudo é vida real. Sinto a realidade em cada morfema pronunciado. Seria o idioma espanhol mais objetivo que o português? Por supuesto. Mas se pode fracassar tanto em um como em outro. Nenhum idioma consegue traduzir todas as nossas inquietações. Clarice Lispector dizia que há muito mais sensações por dentro do que palavras para expressá-las por fora, de modo que vomitou: “nascer me estragou a saúde”. A construção lexical da frase nos faz sentir um pouco impotentes, um pouco confusos, parece aquelas frases de enganar bobo que escrevíamos quando crianças para confundir os amigos mais novos que não sabiam ler muito bem. A verdade é que a linguagem é uma arma. Cada um a maneja como pode. Meu modo preferido é o silêncio. É a maneira de expressar minhas angústias inexpressáveis sem pronunciar palavras miseráveis. Sei que esta é uma dinâmica da minoria. Todavia eu faço parte desta categoria, não mui numerosa, dos que fazem revelações contundentes sem dizer uma palavra. É um modo complexo de comunicação. Ou porque às vezes não há outra solução. Como explicar com palavras que hoje partiu de mim um barco submarino levando o meu coração? Se eu soubesse exercitar o surrealismo provavelmente escreveria um poema terrivelmente exato, ou pintaria, à maneira de Dalí, um autorretrato com todas as ausências humanas. Todos os ocos. Cada uma tomando uma parte do meu corpo. Meu corpo está cheio de gavetas vazias,  e isso não se diz com palavras. Seriam frases mui mal escritas. Enfim, meu silêncio é minha impotência em esclarecer sentimentos e sensações. É uma maneira de me acovardar, de fugir, de não enfrentar o touro e segurá-lo pelos chifres. Não está mal essa metáfora do touro já que estou em terra de toureiros. Talvez, escrever coisas assim me permitissem conhecer os senhores da Real Academia Espanhola, que criam realidades com o idioma e me fazem representar a verdade neste cenário mediterrâneo,  ainda que eu pense, categoricamente, que isso é vida real. Talvez um encontro me intimidasse e eu, automaticamente recorresse ao silêncio. Ou lhes diria em bom português: “nascer me estragou a saúde”, porque em espanhol isso é impossível. 

Lucilene Machado

sábado, 4 de dezembro de 2010

Almodóvar, Che Guevara e as bonecas russas






Almodóvar, Che Guevara e as bonecas russas

          Quando cheguei a Madrid pensei que encontraria uma população muito parecida com os personagens de Almodóvar. Passaram-se um, dois, três meses e o que encontrei foram mulheres elegantes, vestindo Dior, homens discretíssimos em seus ternos de El corte ingles, e uma harmonia de cores que nem de longe lembra os filmes do espanhol. Nada de mulheres com flores no cabelo, nada de beijos marcados e estalados, nada de cores chocantes, nada de personagens exagerados... e quando eu já estava quase convencida de que o mundo de Almodóvar só existe na ficção, eis que tomo um taxi onde me senti em uma película do cineasta. Não chegava a ser um taxi como de Mulheres à beira de um ataque de nervos, mas o conteúdo tão impressionante quanto. Aliás, “conteúdo” foi uma das primeiras palavras pronunciadas pelo condutor, quando eu quis fazer referência à originalidade do carro, na verdade, ao que estava dentro do carro. “Há uma diferença entre continente e conteúdo”, falou com a mesma imponência em que são ditas as grandes verdades. Eu odeio as verdades absolutas, de modo que armei minha tenda de defesa dentro daquele continente cinematográfico, cuja viagem interior poderia ser mais intensa que a proporcionada pela calle de Alcalá, uma das ruas mais extensas de Madrid.
          Começo pelas frases em neon, capas coloridas nos bancos, um babado com brilho a laser no câmbio, revistas, balas, bailarinas penduradas, espelhos, porta-copos, porta-flores e um objeto que chamou muitíssimo a minha atenção: uma boneca russa de Che Guevara.
          Eu já fui apaixonada por bonecas russas. Na verdade, ainda sou. Vez por outra, compro uma. Mas quando eu era criança lá em Terra Rica, isso era um sonho impossível. Não havia bonecas russas brasileiras e, sobretudo, tínhamos uma vida muito apertada para comprar uma boneca importada. Uma prima que morava no Rio, cuja família era muito mais desafogada que a nossa, tinha uma boneca russa. Era algo que me enlouquecia. O fato de abrir uma boneca e encontrar outra boneca idêntica em tamanho menor e depois outra e depois outra... até uma bem pequenina do tamanho de um dedal, me encantava. Ficava imaginando os seres humanos assim. Dentro de cada mãe havia outras mães idênticas em tamanhos menores... a mim mesma me imaginei com outras tantas para dentro até chegar ao mais profundo de mim. Mas boneca russa de Che Guevara, eu jamais havia visto, sequer imaginado. Dentro daquele Che de roupa escura e boinas negras, haveria outros guevarazinhos de vários tamanhos até chegar ao núcleo da representação guevariana. Confesso que tive vontade de abrir, e colocá-los todos lado a lado, para não me esquecer de que tudo é representação, estética, ou como diz o taxista, continente. Ou talvez, a vontade de abrir seja fruto de uma esperança boba de que no final eu possa encontrar algo diferente, algo que não seja uma pequena representação oca, alguma idéia iluminada. Entretanto as bonecas são seu próprio continente, sem nenhum conteúdo.
          A realidade também é assim. Feita de formas e simulacros. Aos poucos vamos aprendendo a conviver com todo tipo de representações, contornos, similitudes... Com pessoas ocas que têm como conteúdo mais eficaz, a própria imagem. Os humanos também são simulacros de si mesmos, estão vazios, e tenho de concordar com o taxista que, a esta altura, se aproveita da minha introspecção para costurar o trânsito numa velocidade de corrida automobilística: “Senhor, pode ir devagar que não tenho pressa”. Ele olha para trás por um tempo maior do que deveria e responde que já estamos chegando. “Eu disse o contrário”, tento gritar, e ele volta a olhar para trás enquanto o carro segue desenfreadamente. “Senhor, eu tenho medo”. Mas ele não pára de falar, fazer gestos e resmungar palavrões para aqueles que resolveram cruzar a rua justamente no momento em que seu automóvel tem que passar. Seguro as alças desde o assento traseiro e fico com a mesma expressão estática do Che que me olha do além. Por minha cabeça passa um pensamento peregrino de que se sofrêssemos um acidente e os nossos corpos se partissem, seriam encontrados, junto aos bonecos de Che, dezenas de bonecos dentro de outros bonecos, tristemente vazios, mas com as cores e a estética dignas de um Almodóvar.


Lucilene Machado

segunda-feira, 15 de novembro de 2010


caricatura - blogscarin.com


Um desconhecido, Borges e eu

O metrô é um dos espaços mais democráticos de Madrid, também é um dos mais interessantes quando se quer refletir a própria condição de ser em relação ao outro. Sempre é possível encontrar o nosso extremo oposto, como também uma infinidade de pessoas com quem nos identificamos.  Por exemplo, o moço de rosto desconhecido que está sentado à minha frente e que lê uma edição inglesa dos contos de Borges está muito mais próximo de mim do que muita gente que eu vejo diariamente. Isso pelo simples fato de sustentar nas mãos esse livro em particular. Não, não é um simples fato, isso é uma ocorrência que pode determinar parte da personalidade dessa pessoa que eu nunca vi antes. Posso supor, entre outras coisas, que o homem que lê Borges no metrô  seja um intelectual inglês e que está na Espanha para estudar literatura de língua espanhola, o que nos faz ainda mais cúmplices. Ou, talvez seja apenas um jovem senhor inglês que nunca ouvira falar antes de Borges  e, sem nenhum preventivo, arrisca-se, diante de todos, a desvendar  o universo fantástico do autor. Nesse caso sinto pena. Lembro-me da minha primeira vez. Da voz borgiana a contornar meus sonhos impossíveis e a dizer para eu  ir  além, um pouco mais do que consigo chegar. E eu com aquela sensação de abismo próximo,  de que é melhor me manter distante, não fazer nenhum pacto com aquela voz cega,  não me aproximar daquelas mãos  tecedoras de lendas que fatalmente irão me perseguir pela noite afora, etcétera e tal.  Tão forte o impacto que tenho vontade de dizer ao moço: “desista! Essa infinidade de palavras parece dizer apenas uma coisa: bando de idiotas.” É assim que me sinto quando leio Borges.  Creio que a manifestação dialógica mais profunda dele está situada em outro plano da psique, o que me (nos) leva a padecer de um estranhamento incógnito.  Impossível  reter Borges  num curso de começo, meio e fim. Tudo se apresenta como facetas,  como elos que não sabemos  articular. Fica uma ansiedade, um tremor, uma nostalgia de que alguma coisa estava ali, talvez tão perto de ser desvendada, mas escapou.
            De onde estou, sigo anonimamente a observar o desconhecido. Quisera chamar sua atenção  e sinalizar que eu também pertenço a essa fé. Também já senti  admiração, paixão e até ódio por esse escritor argentino que cada leitor recria à sua maneira. Mas o moço não se dá conta do meu reconhecimento. Não percebe que somos ilhas de um mesmo arquipélago, que tenho vôos de gaivotas no olhar e que poderíamos juntos sobrevoar todo o mapa da América latina sem sair desse trem. Poderíamos fazer nossas realidades superar quaisquer dúvidas nesse campo de incertezas em que eu e ele circulamos. Poderíamos comprovar uma série de convergências pelas quais lutamos separadamente  e sem nos conhecermos, mas que agora encontravam-se nessa ponte metafísica engenhada pela literatura. Mas... (detesto as reticências) o que se abre nesta tarde é apenas  um bocejo sonolento da boca de um desconhecido que deixou de se apresentar a mim por pura falta de atenção. Também me recusei a incomodá-lo indo me apresentar. Há tantas maneiras melhores de conhecer pessoas. Todavia, mais fáceis. Apresentar-me nessa altura e condição era uma concessão ligeiramente piegas, imposta à nostalgia de um tempo em que ler o mesmo livro era fator de identificação, que a memória recolheria algumas palavras, alguma distração do autor, algum susto que nos deixaria de almarrepiada, ou nos faria chorar durante a noite com a cara metida no travesseiro e as mãos sabe-se-lá onde...  
E outra vez a reticência. Agora para dar passagem ao homem que desceu sem me fazer caso. Toda falta de interesse se paga com uma perda – creio que foi Borges quem disse isso. Pensei, com alguma tristeza, no longo período em que as emoções estéticas deixariam de existir e com falsa indiferença fiquei olhando o homem afastar-se como se tivesse apenas se afastando. Como se isso fosse uma ação corriqueira e comum. Enchi meus olhos com a realidade estúpida e solitária e até o final da viagem deixei de pensar nas coisas que perdemos sem saber que as  estamos perdendo.

Lucilene Machado 

sábado, 23 de outubro de 2010

UMA VOCAÇÃO PARA MOSCAS


Uma vocação para moscas

          Às vezes me sinto um blefe. Como se estivesse em um lugar que não merecesse estar. Com a sensação de que meus algozes vão descobrir que eu não sou quem sou e me vão atirar no fundo de um vazio oco onde estarei para sempre voando em círculos como uma mosca tonta. A bem da verdade, já me sinto uma mosca. Uma tese para escrever e, em contrapartida, uma apatia surda fechando todos os nascedouros do pensamento. Se é que o pensamento tem um nascedouro de onde jorram as palavras que necessitamos para escrever. Com certeza, alguns privilegiados têm esse nascedouro. Wolfgang Iser tem. Theodor Adorno também. Clarice Lispector, para citar uma mulher, devia ter vários nascedouros. Um para cada estado de espírito. Eu, não. E se tenho a obrigação de pensar, penso em nada. Quanto maior o esforço, maior a nuvem de fumaça. Em pouco tempo concluo que o pensamento não nasce. Que o pensamento é um produto de segunda mão que pode ser adquirido a preços módicos, às vezes gratuitamente, conforme a necessidade do freguês; que o pensamento já está pensado e o que fazemos é apenas adaptá-lo aos nossos interesses. É certo que devemos estar atentos. Como em todos os ramos mercantilistas, pode-se comprar pensamentos com prazos de validades vencidos, deteriorados, outros que não se podem comprovar, utópicos, disfarçados, enganosos, mesquinhos, enredadores ou mesmo fatais. Difícil é encontrar o pensamento que possa representar a nossa identidade. Na falta dele, repensamos com os padrões divergentes. Começamos por contrariá-los, depois cortamos as arestas do que vai sobrepujar nosso limite teórico, eliminamos o que julgamos ser impurezas, acrescentamos certos adornos e o vendemos, também, agora com a nossa assinatura.
          Apesar de parecer um raciocínio simplista, trata-se de uma engenharia tão complexa como a construção de uma ponte. Creio que “ponte” é a metáfora exata para à situação, pois é o que nos permite atravessar o vazio e conectar nosso mundo com outros. Não é por acaso que pontífice, antigamente, significava construtor de pontes. A palavra vem do latim pons=> pontis, e o sufixo ífice significa construtor. Logo, pontífice é, primariamente, um construtor de pontes. Infelizmente, hoje está restringida para designar papas e arcebispos, que também não deixam de ser construtores de pontes, já não de concreto, nem de ferro, mas pontes espirituais. Claro que o uso não deveria ser tão reducionista. Há outros setores humanos edificando pontes. Algumas com uma arquitetura muito simples, mas com resultados extraordinários. Há até as pontes que vão do nada ao lugar nenhum, propostas por uma política de marketing, favorecimentos e etc. Trafegar por elas é muito arriscado, provavelmente se cairá no vazio. E o vazio é um lugar para moscas.
          Tomo um banho, lavo a cabeça com água fria para me livrar desses pensamentos inaproveitáveis, dessa poluição que lateja em meu cérebro, aleatoriamente, e me faz escapar do canal intelectual sem que eu tenha sinalizado nada. Preciso de pensamentos que façam avançar meu raciocínio, como fazem os filósofos. Os não-sofistas, pressuponho. Mas para canalizar esse pensamento é preciso livrar-me do resto. Mente limpa, mente sana! penso enquanto seco o cabelo. O espelho é um lugar ótimo para se forjar idéias frívolas e fazermos delas os sustentáculos dos nossos sonhos. Sobretudo quando somos mulheres. A vaidade nos proporciona um prazer incomensurável. Ao mesmo tempo é uma violência que pode nos destroçar. Criamos argumentos miraculosamente fúteis para justificar nossas ações. E a ação é uma prática determinada pelo pensamento. É tão perigosa a vaidade, pode fazer-nos verdadeiras moscas dependentes do pensamento alheio. Há uma indústria criando verdades para os vaidosos, erigindo ciladas em todos os níveis. E quem nunca caiu em uma, que atire a primeira pedra. A vaidade nos deixa débeis e facilmente reconhecíveis. Somos presas fáceis das promessas miraculosas. Falta-nos criticidade? Óbvio que sim. Bom senso também. A propósito, observo meu cabelo que me parece bastante opaco. Examino as pontas, olho as raízes... quem imaginou que eu abandonei a tese para alimentar a vaidade, acertou na mosca.

Lucilene Machado

domingo, 3 de outubro de 2010

ROSAS ROJAS



ROSAS ROJAS

        Aquel hombre cabía entero en los ojos de ella. Cabía en sus manos suaves y ávidas por acariciar. Sería capaz de envolverlo con la tela de sus sentidos. Emboscadas de manos y miradas. Miento, los ojos no ven nada cuando las manos son tentáculos de hembra carnívora. Era un hombre que tenía el tamaño exacto de su deseo. Encajado en sus contornos, íntimos de axilas y muslos, harían la sublime coreografía del amor. ¿Cómo sería su aliento, su aroma... su cuerpo mojado de pasión?
        Por él sería capaz hasta de convertirse en una auténtica ama de casa, inclusive cocinar y lavar ropa. Sería capaz de almidonar y planchar sus camisas blancas una a una, mientras él le besara la nuca, encontrando sensual su aire despojado de entrecasa, y le preguntase en susurros: «¿Estás vestida así para mí?» Claro que sí. Vestida y desvestida, siempre para él. Ahí, él se aprovecharía de la fragilidad de ella y realizaría sus fantasías de macho detrás de puertas y ventanas. ¿Aquel hombre de metro ochenta fantasearía con mujeres frágiles y desvalidas? Por supuesto que no. Parecía más bien una roca inconmovible. Un hombre de alma helada e impenetrable. Individualista, pagado de sí mismo... un verdadero narciso.
Bien, no podía quejarse tanto, hasta que él demostró interés en sus ideas. Y aún cuestionó si ella estaba comprendiendo su punto de vista. «¡Sí! ¡No!» Ella tartamudeó al decir lo que pensaba sobre las relaciones. Las mujeres especiales suelen confundirse. Y los hombres demoran a descubrir eso. ¡Hombres, tan directos y objetivos! La encontró tensa. ¿Tensa? ¡Por favor! Apenas quería las cosas formalizadas. Era romántica... «Romántico también lo soy yo, cariño». Se sintió ingenua. No, más que eso, se sintió infantil. Ni sabía ya lo que era romanticismo. “¿Cómo podría pensar en compromisos y formalidades después del cambio de siglo? Ahora las cosas sucedían espontáneamente a su tiempo. ¿Comprendes?”, preguntó él sin mucho interés en la respuesta. Pero ella sentía la ansiedad pulsando en su piel y precisaba dar una respuesta para mantener el equilibrio de la charla y dejar clara su reputación. Y habló. Sus argumentos jamás habrían de convencerlo, pero no por ello dejó de ser auténtica. No si acostaría con él sin que se estableciesen vínculos de intenciones futuras. ¿Acostarse? No, él habló de noche de amor. Así, sin muchos rodeos, del mismo modo en que la había invitado a cenar.
        Mientras ella hablaba, él se distrajo varias veces mirando a los transeúntes. ¡Qué aburrimiento! Había perdido la noche invirtiendo en una mujer con conceptos ya superados, pasados de moda. ¿Reputación? ¿Y cómo iba él a adivinar? Creía que ya no existía esa especie de mujer... Y pensar que la había escogido a dedo. ¡La más hermosa mujer de aquella noche, y cómo bailaba! Esperó una semana para el encuentro, estaba lleno de expectativas... ¡Pensó en todas las posibilidades! Sería capaz de enloquecerla entre cuatro paredes. Besaría suave su cuello delgado, la oreja, la boca... le haría masajes, caricias, y sorpresas de las cuales ella jamás se olvidaría. Ella iba a quemarse en la fiebre y le devolvería los ojos verdosos encendidos, enmarcados en el castaño rojizo de su pelo. Sería capaz de llevarla en brazos hasta la cama, o simplemente apreciaría su andar de bailarina, que ahora ya no baila pero mantiene la gracia y la cadencia. ¿Cadencia? No, es que ella tenía vocación. Vocación para la ligereza, como una mariposa que bate las alas, posándose de flor en flor. Sería capaz de enviarle a ella una docena de rosas rojas al día siguiente. Tal vez fuese mejor rosas blancas... no, lo mejor eran las rojas. Las mujeres adoran las rosas rojas. ¿Y por qué no? Sólo que no le daría el número de teléfono, eso no. Ella podría llamar e insistir en que pasaran el domingo en el parque, o quién sabe, quisiera una cena íntima preparada por ella. La segunda opción podría ser irresistible. Ella en un vestido negro ajustado al cuerpo, sin breteles... cena a la luz de las velas... pero, y si ella insistiese en presentarle a los hijos, mostrarle el perro, el gato... fotos viejas, ella bailando en el Municipal... ¡No! No quería perder el tiempo con eso. Después hasta podría pensar que él era su novio. Qué cosa anticuada, una mujer llamando a su trabajo, preguntando dónde había cenado, dónde había pasado la noche... ¡Eso no! Sabía cuánto costaba la libertad. No tendría más paciencia para ser marido, novio, o cualquier papel semejante. En un gesto sutil llamó al mozo y pidió la cuenta.
        Ella bajó los ojos tristemente. Sobre la mesa, esculturas que había hecho con miga de pan. Aplastó con el dedo una hormiga roja y solitaria que surgió arrastrándose, como implorando una migaja. ¡Oh, Dios! Migajas, era eso. En el mantel blanco, el rastro enojoso. Era el cuerpo. Pan partido, vino derramado. Jamás tendrían esa comunión. Se sintió indignada. Se retiró sin esperar ninguna gentileza. Apenas algunas palabras así, al acaso, como «gracias por la invitación» y «gracias por la compañía». Podría haber resistido un poco más, pero era muy delicada. Y los delicados tienen poca resistencia. Resta decir que apenas sé que ella pasó el día siguiente arreglando su casa. Cortando, delicadamente, con una tijerita de uñas, los cabos de un bouquet de rosas rojas. Hacía eso con extremo placer. Después las colocaba una junto a otra dentro de un jarro de agua. Todas con el mismo corte oblicuo y el mismo tamaño. Se obligó a comprender que las rosas no hablan, jamás. Ni siquiera las rojas.

Lucilene Machado

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O CAMINHO SECRETO DAS PALAVRAS


O caminho secreto das palavras

      Uma amiga disse para eu não usar a palavra “desgraça” em meus textos. Falei a ela para não avaliar a palavra com o rigor do uso, que a palavra é arbitrária, que guarda dentro de si o espírito das civilizações e coisa e tal, mas minha amiga não gosta da palavra e ponto. E contra isso não há argumentos. Devo dizer que também não me agrada o significado que “desgraça” atualmente comporta. Agrega uma única unidade de pensamento que sugere uma única idéia, a do infortúnio, da miserabilidade, do fim da dignidade, do irreversível. O prefixo “des” passa des-percebido. Não nos atentamos de que o “des” significa ausência, logo desgraça significa “sem a graça”.
      A palavra “graça”, que é de onde se origina a desgraça, é uma palavra linda, poética e sagrada. Vem do latim gratia, que deriva de gratus (agradecido) e que em sua primeira acepção designa a qualidade ou o conjunto de qualidades que faz agradável a pessoa que a tem. Razão porque algumas pessoas mais idosas costumam perguntar “qual é sua graça?”, significa que o sujeito, segundo a doutrina cristã, recebeu a graça de Deus e, junto com a graça, o nome. Nome na cultura bíblica é o mesmo que identidade íntima, o mais verdadeiro de mim mesmo. Também há outra pergunta enraizada na cultura popular que é: “quando você vai nos dar o ar de sua graça?” que seria o mesmo que dizer “quando poderemos contar com sua presença?”. Presença, neste caso, é igual à graça. Também tem aquela graça que equivale ao carisma: “fulano é uma graça”, ou como diria Hebe Camargo “ela é uma gracinha”. E, além da identidade, presença e carisma, não dá para deixar de fora aquela “graça” que faz rir. A graça engendrada pelos humoristas ou por pessoas chamadas “engraçadas”, um derivado com prefixo e sufixo.
      Graça é também um conceito fortemente arraigado no judaísmo que significa dom gratuito de Deus. Antigamente para os judeus, alguém que não tivesse onde dormir, alguém que se alimentasse ou se vestisse mal era considerado sem bênção, automaticamente, sem a graça de Deus. Ao ver alguém nessa situação, os judeus proferiam: “este é um sem bênção e sem a graça de Deus”. Na medida em que o tempo foi passando, a frase foi se encurtando e sintetizada para “este é um desgraçado”, o que para os judeus significa, ainda, sem a graça de Deus.
      O que percebemos é que a palavra primitiva “graça” tem toda uma carga histórica, ideológica, religiosa, popular entranhada em seu significado. E em todos os segmentos em que se manifesta, apresenta uma conotação positiva, altiva e bela. Porém se acrescida do pequeno prefixo “des” fica murcha, seca, totalmente esvaziada. Perde-se a evolução e a involução do conceito. O “des” suga com uma cânula todo o teor lírico e religioso da palavra. O “des” é um profeta erege que determina outro poder ao vocábulo, esvazia a história, apaga a identidade, suplanta o carisma, atira o tempo pela janela e se derrama desgraçadamente em praça pública. Porque a desgraça está nas ruas, nas praças, nos guetos e parece irreversível, porque depois de ser desgraça a palavra não consegue retroceder. Segue sua sina mortal, embora eu creia na imortalidade da palavra, sei que ela tem corpo e alma, que é dotada de um espírito que rege o universo e move-se sobre a superfície da terra. Que as palavras modulam na compleição do pensamento e na elevação do espírito. E que se regressarmos às forças primordiais da criação do cosmo, somos capazes de retomar essa força da longevidade da palavra: no início era a palavra e etc. Sabia Deus que os homens iam carregar a palavra com significados? Por supuesto. Daí que ganhou um tempo, transformou a palavra em carne e habitou entre nós. E a palavra se fez Deus. Apesar das experiências pessoalíssimas com as palavras, pouco sabemos dos desígnios de Deus. E é nesse ponto que se rompe o nosso cordão umbilical com o misterioso umbigo do mundo. Essa foi a nossa des-graça. Temos que encontrar outros canais para conexão com o criador. Falando em conexão, deixa eu puxar o fio condutor desta crônica que soltei em “sina mortal” – tenho uma facilidade enorme para fugir do assunto – e completar que a sina da palavra desgraça está muito bem delineada junto à margem do ruidoso abismo da criação, foi o preço pela emancipação humana. E que minha amiga me perdoe as palavras, e o pensamento que vai na frente das palavras, na verdade eu só queria dizer dessa pequena poesia que é a humanidade, dos pequenos adágios que resumem idéias, pensamentos e sensações em nada. Que perdoe também minha maneira quase leviana de falar das coisas sagradas, motivo pelo qual não me aventurei pelos campos da Teologia. Tampouco da filologia.

Lucilene Machado

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