domingo, 10 de novembro de 2019

CORINGANDO


Coringando

Queria te contar que vi o filme “Coringa”. Não tem qualquer relação com os filmes franceses delicados e sensíveis que vimos juntos. Lembra-se de “O fabuloso destino de Amélie Poulan” que chegamos a ver três vezes? Era uma protagonista se entregando aos prazeres de sua rotina insignificante. Nem era preciso muita sensibilidade para perceber a razão de nossa identificação. “Coringa” sim, me exige um pretexto psicológico para explicar a razão de ter gostado tanto. É um longa-metragem marcado por certos clichês, como a da velha narrativa do homem bom que se envilece, as explosões sangrentas dos filmes comerciais, a maquiagem/máscara já usada em tantos outros filmes e etc. Salvo esses detalhes, é uma produção incomodativa, muito. Por trás da tentativa de agradar a gregos e troianos, há uma leitura simbólica/metafórica muito mais profunda do que a encenada por um homem com uma enfermidade mental, controlada por medicamentos, que ganha a vida como palhaço e cuida da mãe em um velho e opaco apartamento.
É, antes de tudo, um homem influenciado pela televisão, e esta molda sua maneira de pensar, sonhar, imaginar. A TV funciona como uma fábrica de sonhos. Ele sonha com um pai personificado no apresentador de TV, sonha em ser famoso, em ser um comediante stand up e fazer as pessoas rirem, mas sua vocação vital é para a tragédia. Vive uma aparente normalidade, entretanto, o que não se percebe, é a gestação de um monstro que vai nascer de uma estrutura social que deixa as pessoas invisíveis. Arthur é um homem tentando se encaixar em algum lugar, tentando ser aceito na sociedade fraturada de Gotham, tentando pertencer a qualquer classe, mas não consegue se inserir. Sempre só na multidão, o protagonista busca uma conexão, recorre às ruas grafitadas de uma cidade hostil e não encontra qualquer fio de afeto. Mesmo sem cometer qualquer tipo de crime, é tratado com vilipendio, deboche, humilhação e violência.  O que possui são duas máscaras. Uma para seu trabalho como palhaço e a outra que não pode tirar, é uma tentativa de se sentir parte do mundo que o rodeia e não o homem incompreendido a quem a vida está golpeando diuturnamente.
Há muitas temáticas em “Coringa” que merecem ser desdobradas. Uma delas é a questão envolvendo a mãe, que é considerada louca sem demonstrar nenhum indício de loucura. Fica subtendida uma força patriarcal que converge para o seu enlouquecimento. O resultado  é uma mulher frágil, destituída das ferramentas de luta, que escreve cartas com letras de calígrafa, perfeitas, como um único meio de pedir socorro. Isso leva a crer que a desgraça da mãe foi conhecer um homem poderoso com quem se relacionou até conceber um filho. Como forma de negação, esse homem a internou em um hospício e inventou a narrativa de que a criança fora adotada. Esse pai ausente tem a cumplicidade de outros homens, formando uma rede de proteção difícil de penetrar. O filho, que descobriu por acaso a identidade do pai, tenta furar o bloqueio, mas é engolido pelo sistema criado pela sociedade abastada que, incisivamente repetitiva, convence até mesmo as vítimas de que são culpadas  pelos  próprios infortúnios.
“Coringa” é a alegoria da sociedade cada vez mais injusta. É um soco em nossa cara individual e coletiva. É uma forma de indignação, um protesto, um pedido de socorro. Dependendo de quem assista, pode ser uma arma afiada ou um despertar da consciência. Arthur Fleck torna-se o representante involuntário das ondas de protestos dos pobres contra os ricos, dos cidadãos contra seus governantes, dos operários explorados contra os homens brancos exitosos que conseguiram chegar alto explorando a mão-de-obra barata, roubando do sistema político, fechando os olhos para os que clamam por um pouco de esperança.
As carências que tentam ser acobertadas pela vida chegam a incomodar o espectador desavisado que espera encontrar uma produção que dialoga com o Coringa de Batman. Não, não dá para sentir ódio desse anti-herói, sentimos pena, torcemos para que ele não morra, para que seja regenerado, seja envolto em um espírito de solidariedade, mas o individualismo determinante lhe oferece uma arma carregada e a desgraça se concretiza na sua descida profunda à loucura. Ainda assim, muitos outros loucos alçam voz para acompanhá-lo. Arthur emerge dos abismos como um líder perigoso de uma sociedade louca. Um líder esquizofrênico que mata, ri, dança sem que nada lhe importe. Um homem com um caos interno que se propaga e contagia os milhares de habitantes no caos dos porões, dos becos, das favelas e na miséria invisível que caminha lado a lado com as elites.
Não é para defender Arthur que a massa se levanta e sim para defender um palhaço anônimo, protótipo de qualquer um de nós. Assim como na vida real, é mais fácil ver o personagem como vilão, como o sujeito que se negou a ir à escola, do que como vítima da opressão, da intolerância, da desigualdade e do sistema excludente que explora e esgota o indivíduo e o abandona às margens, quando não há mais interesse. Neste mundo em que preconceitos de todas as ordens passam a ter raízes cada vez mais fortes e a injustiça torna as minorias impotentes, é preciso refletir o enlouquecimento da sociedade antes de nos afogarmos em nosso próprio lixo físico e mental. 
Enfim, você deve estar se perguntando por que estou escrevendo com uma linguagem tão crua, tão descosturada da poesia... talvez seja para me desfazer da memória incômoda que grudou na parede do meu cérebro após a saída do cinema: Gotham City é aqui. 

                                               Lucilene Machado
                                              

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Choveu uma eternidade






Choveu uma eternidade

e ele encheu minha cama de água

entre o meu corpo e o dele 

um rio sinuoso com peixes coloridos

quando secou, eu não soube olhar as coisas como antes

não havia brilho, nem sons

perdi os sinais

as setas indicativas

perdi o mapa do meu sono

dar outro passo seria penetrar a ferida

da imagem que não quero desconstruir.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Água Viva


                                   imagem: https://hilight.kapook.com/view/107616?view=full
Água Viva

Os amantes se separam e partem, individualmente. Viajam entre  águas vivas estufadas de dores. Acumulam os soluços em recipiente à parte, junto às últimas falas de um idioma comprimido e sorriem com os dentes apertados. Os amantes precisam de pessoas  novas, promessas novas, sonhos novos e nova dicção. Querem esquecer o glossário antigo, gasto pelo uso e pelo tempo. Os amantes exibem um novo corpo, novos movimentos, novos abraços, novos prognósticos. Os amantes praticam alquimia, cada um no seu contexto, arriscam seus totens e andam, andam, andam... tremem em uma coreografia sem paixão, tentam, reintentam e depois se sentam cansados. O desconsolo tem ramos que saem pelos ouvidos e serpenteiam sobre a cabeça. O mundo partiu-se em dois. Há restos mortais nas vozes, letras mortas sobre as tatuagens que pactuaram, sons apagados nas gargantas.  As marcas dos corpos vão desaparecendo e eles sentem uma dor inexplicável entrando pelos poros. Os amantes olham para o horizonte buscando sinal de fumaça, mas já não há nada, apenas o desejo de ir a um lugar que não existe. Não há nada de verdadeiro nas palavras que proferem, eles sabem. Não haverá tão cedo, inverdades os manterão afastados. O que restou de concreto foi uma mesa empoeirada para encontros furtivos e uma estátua de concreto embaixo de um céu infinito. Os amantes estão arrependidos, mas isso não importa, precisam manter a aparência. O pouco que compreendem é pouco para resgatar a loucura da beleza frenética da luz. E os amantes se acovardam, encenam textos ridículos, mostram caricaturas deformantes, apostam em outros jogos, vários jogos até ficarem muito distantes e um mar de água viva crescer entre os dois. 
Lucilene Machado


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016




A insustentável leveza do ser

            Apesar do título, não tenho nenhuma pretensão de me aprofundar na literatura de Kundera. Apenas uma analogia com a ideia principal da obra: tudo o que apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. A vida é balizada por pesos, segundo ele. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida e mais real e verdadeira ela é. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne leve, mais leve do que o ar, e faz com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semirreal, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?
            Perguntas para as quais não vejo respostas concretas. Não somos capazes de determinar os limites das possibilidades humanas que traçam as fronteiras da nossa existência. Nos inventamos o tempo todo nessa incongruência de peso e leveza, nunca estamos certos se estamos agindo bem, mas sim, que estamos agindo como queremos. Queremos voar, elevarmos-nos, subir, subir... até que vem a vertigem e a voz do vazio, embaixo, começa a incomodar e queremos terra, raízes, um território para chamar de nosso, conforto, consolo, laços, rotina. Até acordar ao lado da mesma pessoa, todos os dias, se revela de uma beleza inexplicável. E Kundera chega a uma conclusão sem nenhuma certeza: só tem valor aquilo que pesa.
            Kundera explora as relações de dois casais. Penetra com profundidade no pensamento incoerente do ser humano, procurando alguma explicação para o não-sentido da vida. Impossível, como leitor, não fazer ponderações, não pensar a minha maneira de pesar as relações, levando em conta, naturalmente, os estereótipos que a vivência carimbou em mim. E foram tantos. Provavelmente minha unidade de medida para um relacionamento seria a palavra, as ações e o silêncio. Toda relação precisa de palavras. Elas são condutoras dos sentimentos. São delicadas, românticas e tão poderosas que são capazes de ressuscitar o que está morto. Mas são igualmente perigosas. Se não forem bem dosadas podem ferir de morte. Na palavra reside a complexidade de uma relação, sobretudo porque ela pode ser traída pela verdade das ações. As ações podem condenar as palavras e torná-las malditas. Nada pior que uma sentença maldita trançada sobre a nossa cabeça. Daí as leves escolhas: algumas ações e palavras preventivas. Limites demarcados para conter sentimentos. Ausência de futuro. Vínculo frágil. Euforia. Satisfação, mas, sem os silêncios dos cúmplices, sem a sintonia sossegada dos que estão distantes, sem o exercício sereno de quase tocar o destino do outro. Sem sentir o grão da alma do outro a nos arranhar os olhos. Um detalhe: há riscos. Quando o silêncio é molhado, dói. Dói mais do que a dor, macera nossa existência, é o amor vivido em suas complexas e assombrosas disposições.
            Para Kundera, o ser humano em suas pungentes solidões, tem a necessidade profunda de amor. E o amor está na categoria do pesado. O amor gangrena, fica incrustado embaixo da pele e é preciso ter a coragem lenta de vivê-lo. É uma maneira de sentir a vida fincada em nós como os caibros de uma cerca e, como Quixote, não nos queixarmos da dor. A nenhum escriba jamais ocorreu lamentar essas feridas. Apenas ruminar a angústia e escrever versos.
            Milan é bastante contundente quando trata da vulnerabilidade de interpretação de cada individuo. Somos incoerentes e  pagamos um alto preço por meras questões de orgulho, obsessão, medo, estado de espírito e até mesmo burrice. O consolo é que somos a maioria. Muitos são os que caminham ao nosso lado na solidão, preparando-se para o avanço do mundo, fazendo da harmonia um compromisso a qualquer preço, querendo ser sonhados, mas não querendo sonhar, vivendo a evidência dos outros e desviando-se, sempre, dos caminhos encantados, ainda que inconscientemente. 

Lucilene Machado

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Trouxeste a chave?



TROUXESTE A CHAVE?

            Encontramos um Drummond na parede úmida da casa. A princípio pensamos ser um homem qualquer, desses que aparecem pichados nas paredes dos prédios, mas quando minha amiga contornou a cabeça calva com óculos de grau, a espinha cuidadosamente empinada e as pernas finas do Carlos gauche, a interpretação foi unânime: é o poeta. Veio do lugar das coisas acontecidas e deve ter descido pela escada de algum verso retumbante, até ficou com cara alegre.
            Meu primeiro desejo foi perguntar: trouxeste a chave? Mas me pareceu atrevimento. Então falei: - Salve Carlos, sou a que te ressuscitou na parede da memória.
 Ele respondeu com um silêncio solene. Mas eu vi em seu rosto côncavo que ele queria falar, estava refletido no ar de sua escutação. Desconfiei que quisesse dizer: “penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos”. Fui logo me defendendo: - o reino das palavras que te apresentaram está gasto, não sei se isso o decepciona, mas o eterno não vale mais. As árvores já não nascem, precisam ser plantadas. As mulheres têm parto sem dor, já não se ouve o grito da natureza cruzando o corredor escuro para encontrar a luz, tudo é rápido e efêmero. Nada nasce lentamente, como você descreveu, nem o amor. O amor ganhou novos contornos e a poesia teve que se armar, até os dentes, para defender os seus princípios líricos amorosos.
            Mas, perdemos, Carlos, perdemos. Você e eu. O amor é um pênis gigante dentro da boca. Já não cabem as palavras. Só o gosto ácido da saliva e a dor seca da mandíbula a modular narrativas. O amor já não é semeado no vento e, como você profetizou, chegou o tempo em que perderíamos os afetos. Não adianta morrer. Chegou o tempo em que viver é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação, sem poesia. Confesso - só para você - que sinto pudor em existir, me vejo deslocada no tempo, sentindo falta de coisas que já não existem, guardando palavras detrás dos dentes, porque falar não importa. Importa fazer. Meu cansaço é o cansaço deste tempo frívolo, das palavras vazias escorregando pela língua. Pagam-se preço alto pela estética e já não se perguntam no bonde “meu Deus, para que tantas pernas?” Perdemos o gosto real das coisas. O mundo ficou calhorda. Todos buscando algo que não sabem. Montando máquinas enfurecidas. Fazendo orações em benefício das desgraças, explodindo e implodindo corpos como se fosse um grande orgasmo.
            Morremos em todas as batalhas, poeta. Vários colegas se calaram. Ficaram mudos dentro de si. Profissionais analistas da alma tentam resolver a questão, mas quê!
É o tempo nervoso da procura. A frustração parece estar implantada dentro de todos com suas raízes secas, apregoando que devemos nos acostumar com a solidão. O homem se tornou um bicho acuado, de gestos pequenos, palavras medidas. Já não temos confissões. Por outro lado, o silêncio nos rói, nos mata lentamente, sem pactos e sem molduras. Um silêncio desumano que vai fatiando a veracidade das coisas, por mais racionais que sejam. Ficamos desprovidos  de fé e esperança. A verdade é um fio de cabelo atando fragilmente as palavras. Não se pode acreditar nela.
            A última verdade que constatei foi sua presença no corredor do banheiro. E é estranho que estejas feliz, nessa sina de fantasma, a me ouvir com uma paciência feminina. Continuas o Drummond de sempre. Nem vou descrever meu estado de espírito, há momentos em que as coisas são intensamente o que são que dispensam qualificativos. Só digo que ri alto, tanto que os vizinhos querem saber. Estou pensando em cobrir de tinta o seu corpo. Uma forma de proteger nossos diálogos, mas saberei que você está ali. Guardarei na retina cada traço do seu contorno, cada razão e cada loucura. O mundo é outro, mas é o mesmo. O tempo continua transformando o saber em devaneio e criando sulcos nessa geografia árida que agora desdiz o nosso reino de palavras. Seja sempre bem vindo, Carlos.

                                                                                         Lucilene Machado 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quem está preocupado com a educação?




Quem está preocupado com a educação?

            Estamos em um ponto em que não temos nenhuma ideia do futuro. Presume-se que o futuro se faça com educação, mas quem está interessado? Se você diz em determinado contexto que trabalha com a educação, as pessoas mudam de fisionomia. Na sequência virão afirmações e perguntas para as quais não bastam uma simples resposta, se faz necessária uma defesa com argumentos amarrados à área das humanidades, enfatizando a antropologia, sociologia, pedagogia e até a vocação mesmo, ainda assim  o sujeito emissor vai te olhar com cara de pena. Já ouvi até alguém dizer: “tão inteligente, foi ser professora”.
            A educação, como trabalho, segundo os ditames da sociedade é para os menos favorecidos. Menos favorecidos intelectualmente, menos favorecidos culturalmente, financeiramente etc., porque para a sociedade o que importa é o dinheiro, a fama, a aparência, a capacidade de sedução, de convencimento, ainda que isso gere grandes corruptores. Reina o chavão “o mundo é dos espertos” e, se você é professor, por certo não é “esperto”.  Em um país onde a não-educação é regra, o que interessa é o barulho, o pensamento clichê, frases prontas, repetições. A maioria dos jovens que saem do Ensino Médio não sabe pensar, não sabe estruturar uma ideia, não sabe conceituar um termo, ou seja, repetem o que dita a mídia, e são facilmente manipulados por um sistema que vende falsas esperanças e desenvolvem manobras capazes de manter um povo ignorante.
            Hoje digo a meus alunos que a educação nos interessa porque é ela que vai nos levar ao futuro que não podemos entender. Um futuro escuro. Não temos ideia de como será o mundo em cinco anos, embora se espere que eduquemos para isso. A incerteza é avassaladora e nisso estamos todos de acordo. Mas a maioria não tem consciência do que é. Estamos caminhando para um abismo e a melhor defesa contra o abismo é a consciência da possibilidade de abismo e não nos instalarmos no narcisismo de nossa invulnerabilidade. Nada nos faz tão infinitamente frágeis ou tão infinitamente covardes do que a inconsciência que temos diante dos fatos. Esquecer as precariedades é esquecer a extraordinária potência que temos, ou que não sabemos que temos.
            Hoje ouvi duras críticas às universidades, que estas não sabem e não estão preparadas para formar professores. Há certa verdade nisso, mas não é apenas nossa essa responsabilidade. As famílias também não sabem formar os filhos e grande parte dos filhos sequer sabem qual o papel da família. Talvez a primeira lacuna na aprendizagem se dê aí. Os pais imputam à escola um papel que não é dela, o qual ela não está obrigada a realizar. Sabe-se disso, mas como cobrar? a raiz está em outra precariedade que fragiliza e tira a dignidade de nossas famílias, a política. Há uma citação clichê que circula em infindáveis discursos de que toda nação tem o governo que merece. É o povo que institui o sistema político, logo, por silogismo, o povo não sabe votar. Não sabe mesmo, mas a culpa também não é só dele. Ninguém ensina ninguém a votar, ensina-se a pensar, a refletir, levantar hipóteses, constatar... Ensina-se a história, a ideologia, como funciona um sistema de ideias e o voto será o resultado dessa aprendizagem. Mas quem faz questão que o eleitor pense? Adentra-se a um ciclo vicioso que vai nos extraindo as esperanças a fórceps.
            Passamos vários anos de nossas vidas em um intenso programa de formação. Grande parte de nós já tivemos a possibilidade de estudar no exterior, trocar experiências, avançar nas pesquisas locais, reformular o pensamento, trabalhar com ética, responsabilidade, solidariedade e avaliar criticamente as ações vividas, sem perder de vista o olhar do conjunto e do local onde trabalhamos, pois é isso que nos trará a responsabilidade profissional em nossas tarefas. Mas temos um grande problema: obedecemos a um sistema.
            Quando um novo professor chega à escola se vê obrigado a adaptar-se ao sistema educacional político vigente, que sempre é o mesmo no sentido de deficiências  e nunca é o mesmo no sentido de continuidade. Aliás, não temos um sistema educacional independente das descontinuidades políticas. O projeto educacional brasileiro precisaria ter continuidade. Temos programas excelentes que quando começam a dar resultados são abolidos. Projetos que aproximam a universidade da escola, que estudam o contexto do entorno, que trabalham a construção do conhecimento interdisciplinar com o fim de formar um sujeito pensante... Mas são barrados por falta de verbas. São barrados por falta de vontade política, ou porque uma educação eficiente poderia dificultar as manobras políticas que imperam na sociedade.
            Ser professor no Brasil é viver a experiência quixotesca de dar murro em ponta de facas e o professor está esgotado. Políticos e empresários, sem o menor escrúpulo, ditam seus critérios de eficácia, o que na verdade são critérios de rentabilidade, dentro de um modelo de objetificação do conhecimento. Se por um lado o governo não cumpre com sua parte, por outro, a sociedade não executa o seu papel  fiscalizador. Alguns por comodismo e outros por falta de compreensão. Sem a compreensão dos fatos tem-se a incivilidade. Pela falta de compreensão dá-se a barbárie e a educação vai ficando esvaziada de educação. As pessoas não contam mais com a luz natural dos seus olhos, vê com o olhar do outro, com o olhar tecnicista da objetificação. Compra ideias prontas, tecnologicamente desenvolvidas. O pensamento está em decadência, o humanismo está em regressão e a sociedade está à beira do abismo, mas quem está preocupado com o futuro?
Lucilene Machado
Doutora em Literatura e Teoria literár

terça-feira, 8 de dezembro de 2015





O mar, Deus e as mulheres

            Acordo e vejo o mar lambendo o horizonte. Um mar imenso se oferecendo a mim desde as suas profundezas. É certo que não temos muita intimidade, ainda tenho receio dessa profundidade desmedida e traiçoeira. Uma sedução silenciosa que me molha por dentro, ainda que eu mantenha essa distância de vidraça. Creio que o mar é um porta-voz impessoal de Deus. Ora calmo e sereno, ora enfurecido. Uma dualidade que me amedronta. Quando criança, tive muito medo de Deus, qualquer transgressão geraria castigo e castigo era uma palavra esmagadora, cujo significado era totalmente desconhecido. O castigo poderia ser imediato, o que não deixa de ser a forma mais positiva de punição, o contrário seria esperar lentamente a hora de ele chegar, e isso não previa lugar, nem hora, apenas que fatalmente viria. Construí um Deus brutalmente humano, carregado de vingança, a partir da regra dos outros, religião dos outros, do pensamento dos outros. Um Deus que se movia por repetições de palavras e muita insistência. Uma lógica cartesiana, a mesma com a qual interpretamos o mar e seus abismos.
            Segundo Clarice, o mar é a mais ininteligível das existências não humanas e a mulher a mais ininteligível dos seres humanos. Uma mulher e o mar é o encontro de dois mistérios. Uma mulher, o mar e Deus são três mistérios e uma coragem secreta. A coragem de ser fêmea e correr todos os riscos, inclusive o de ser castigada. Um perigo antigo que sobrevém a qualquer hora, às vezes pela madrugada quando dormem os homens, dormem as crianças, dormem as coisas um sono fácil e profundo.
            Eu não tenho sono fácil, nem profundo. Os pensamentos fazem espirais pela escuridão do quarto, depois escorrem pelo corpo e se transformam em sonhos, muitos sonhos que alcançam as largas manhãs azuis. O dia começa devagar e cúmplice. Gente de todas as idades caminha pela areia. Mulheres com seus bebês, mulheres com grandes barrigas, mulheres paradas olhando o mar, enquanto a vida passa por esse corredor estreito como um vento ligeiro. A poesia se arma em minha defesa, como um escudo. A fugacidade das coisas nos deixa melancólico, é preciso amor para perdurar. Amo de duas maneiras, pensando e vivendo. Mas hoje estou desencantada do amor, só hoje, porque amanhã me esquecerei dos espinhos que ele deixa na carne e me lançarei nesse mar traiçoeiro com toda a agudez dos meus instintos. Porque só o amor me faz sentir honesta e sensata. Só o amor me faz sentir o sangue queimar embaixo da pele, sem culpa. Mas há sempre uma causa e uma consequência. Se não sabemos para onde vamos, fatalmente cairemos num abismo, e o amor se torna um vazio indecifrável em que as certezas já não têm nenhuma utilidade. O amor tem também seu dualismo, é o que se espera e o que não se espera, encantamento e decepção.

            A imprevisível meteorologia da paixão cobre o sol a qualquer momento e já não sabemos em qual estação estamos. Só o mar e a  ausência anunciando, talvez, o velho castigo de Deus. 
                                                 Lucilene Machado

sexta-feira, 25 de setembro de 2015





Amor em tempos de descobrimentos
             
           
            Vivemos o tempo de descobertas e experimentos. Experimentamos palavras de diferentes naturezas, mas sempre intactas, completas de significado. Flexionamos verbos de ligação, ação e movimento, todos no tempo presente. Às vezes a flexão é tão intensa que nos sentimos cansados. Aí silenciamos. Um silêncio que vai perfurando nossos segredos mais íntimos e proferimos com os olhos coisas ainda não nomeadas. A carga semântica do que não tem representação fonética faz meu corpo tremer e quando ele murmura “meu amor”, tenho certeza que todas as coisas estremecem.
            Estremecer é um verbo que experimentamos a cada encontro. Uma palavra que já ganhou memória afetiva à qual invocamos cada vez que nossa boca se aproxima. Um pequeno abalo sísmico nos une e nos agarramos fortemente para nos sentirmos mais confortáveis.
            Conforto também faz parte do nosso léxico, é uma palavra que nos cobre com toda sua potencialidade. Nossos joelhos  emitem sinais de conforto, bem como nosso ventre, pernas e  braços enroscados. Nossas peles se reconhecem e não há lugar no mundo mais apropriado para eu morar do que nesse aconchego. Juntos nos metemos em uma caverna invisível, rodeada de frases, de onde só saímos quando temos fome ou sede.
            Às vezes palavras desconhecidas se oferecem para abrir o nosso dia ou fechar a nossa noite. Lá fora o caos nunca se estanca, dentro me ofereço na perfeição redonda de uma libação. Libação é dádiva, uma oblação que só definimos pelos conceitos dos livros, mas às vezes a palavra quer ser posta em prática, quer ser escrita no longo mapa de nossos corpos. Há muitas outras palavras esperando para circularem em nossas línguas: palavras sagradas e profanas. Crepitam pela noite, crescem pelo espaço da distância e vão se coadunar  pelas esquinas de nossa história. 
            História é palavra antiga que atravessa todos os tempos. A nossa é contemporânea, recém inventada pelo pós-modernismo ou neo-pós-modernismo ou pós-neo-modernismo... certo é que a encontramos originalmente no caos noturno das horas, na vertigem de um mundo urbano estranho e louco. A poesia invadiu a miséria dos simulacros e esboçou futuros roubados de nossos olhares. Brindamos com vinho e frases. Tentamos dizer como tudo é outra coisa e que o amor no tempo futuro é terrivelmente profundo. As maçãs estarão vermelhas e as uvas pendidas sobre a maturidade.
            Por enquanto, bebemos juntos essa terna intimidade que nos acolhe com os estremecimentos da carne e do coração e vamos nos seduzindo com nossos verbos, nossos pontos, nossas vírgulas, nossas carícias, nossos atrevimentos contínuos... e que o prazer que junto inventamos tenha significado verbal de liberdade.
                                         Lucilene Machado


terça-feira, 8 de setembro de 2015


Mulheres com poderes nos olhos

            Vi uma mulher passando delineador enquanto esperava no semáforo, uma imagem que ficou grudada na parede do meu cérebro. É certo que isso não é um fato corriqueiro, provavelmente nunca mais verei essa cena que o acaso amarrou dentro de um instante, daí minha necessidade em contar. Embora seja esta uma história muito simples, a palavra tem sua potência e, posso dizer que embaixo da superfície desse fato há uma série de outros acontecimentos pululando que talvez me exigissem muitas páginas para descrevê-los adequadamente. A realidade concreta tem muitos matizes.
            Mas a mulher do semáforo me deixou pensativa por uma semana. Ser mulher é mesmo algo excêntrico, somos muito peculiares e muito parecidas. Naquele momento, o pronome “eu” perdeu toda sua rigidez de filho único e voou na condição de “nós”. Nós mulheres somos capazes de nos maquiar no retrovisor do automóvel e isso é uma particularidade atribuída à condição feminina. Também somente à mulher é atribuída essa necessidade de embelezar os olhos. Que o digam as mulheres mulçumanas, que cobrem todo o rosto e pescoço, maquiam os olhos com delineadores escuros, e neles colocam toda a força da sedução. È provável que o nosso olhar ocidental não manifeste a mesma eficácia, mas não podemos negar que os olhos são a parte mais expressiva do corpo humano, com ou sem delineador.
            Particularmente, creio que toda mulher deveria usar delineador, algum dia, como um truque para  desgarrar-se de si. Esvaziar-se do olhar ideológico e se apropriar de outro que lhe recubra de fantasias. Um delineador não deve ser usado só. Ele precisa de certas combinações como brilho nos lábios, meias de seda, saltos e outros complementos que fazem parte do quebra-cabeça que compõe os diários secretos de nossas emoções, ou de nossa paranoia existencial. Mulheres de olhos desenhados parecem mais determinadas, ainda que tenham vocação irresistível para os abismos. Cada metáfora pode ser uma existência inteira, vivem-se todas as coisas, sem viver nenhuma. Tudo pode ser revisto, reposto, reinventado. Mulheres destemidas sabem que as palavras não têm significado estável. Pode-se devorar ou ser devorada nesse exercício de exalar hormônios. Os traços escuros circundando o viés da vista e a luz a rebentar todos os contornos.
            Às vezes é muito prazeroso ser mulher. Gozar dessas pequenas coisas que nos cabem. Contudo é preciso ter cuidado, nunca sabemos onde os olhos podem chegar, nem qual realidade tentará emparedá-lo. É incrível a sensação de estar disfarçada de si mesma, o olhar sem fundo delineando uma procissão de palavras ambíguas e sedutoras. Entretanto, na duração das coisas habita sua revelação. Não se pode abusar por muito tempo do mesmo disfarce. Sabemos que na segunda-feira temos de retirar o véu de nossas caras maquiladas e ir à luta porque coube a nós desatar da vida a totalidade de suas amarras. Assim, vamos escrevendo o nosso destino sem aparar as pontas, sem perder os minutos que escapam no trânsito, enfrentando os monstros que se levantam para amedrontar mulheres que têm poder nos olhos.

Lucilene Machado 

terça-feira, 28 de julho de 2015




Tenho sempre uma viagem bailando nos olhos. Nasci embriagada de universos. Os cartões-postais estrangulam os horizontes do meu desejo. Meu corpo é cheio de espaços vazios que precisam ser preenchido com lugares. De modo que, todas as noites, descalça, vou e volto a um país desconhecido a um lugar que eu não habito, mas que me habita por dentro. Vou salvando versos que libertam minhas algemas de alforria e tropeçando em estrofes no meio das ruas. Não meço distâncias, atravesso as linhas limites com a satisfação de estar longe da casa onde nasci. Há tantos lugares no mundo onde eu gostaria de viver... Mas não é simples conciliar desejo e realidade, a maioria mora em lugares para os quais foram predestinados e não exatamente por escolhas. Comigo foi assim, de modo que me acostumei a seguir nascendo em inúmeros  lugares desconhecidos. Parteira de mim mesma, arrasto-me como uma sentença até ao ostracismo estrangeiro, de onde espio a vida acontecer. Nomeio-me em filigrana a cada sitio. Batizo-me  debaixo de distintos céus. A mãe natureza é a mesma em qualquer parte do mundo. Boceja a solidão com sua belíssima boca,  engolindo o caos de cada dia.

Lucilene Machado.

domingo, 14 de junho de 2015

A ver navios






A ver navios...

Sempre me vi atraída pela palavra “porto”. Sua carga semântica ultrapassa o significado. A bíblia apresenta várias vezes a palavra como metáfora de segurança e acolhimento. Mas não se resume a isso, um porto está cheio de possibilidades. Pode-se partir, pode-se chegar, pode-se esperar ou sentar-se à beira do cais para ver passar os dias. A última forma é a que mais se ajusta ao porto de Corumbá, um lugar que, gramaticalmente, verte silêncio.
Aqui, a palavra “porto” tem a entranha aberta para constituição de novo sentido. Mas sei que esse porto já foi, de fato, porto, que muita gente já estendeu os olhos perdidos e vazios para esse horizonte, ao contemplar um navio partindo.  E isso perturba o meu espírito que teima em mergulhar nessas águas silenciadas. Sinto uma ternura confusa... Sei que esse lugar foi cenário para muitos amores. Vastas noites de insônia atravessadas por um rio, por um apito, por um lenço abanando.
Dói esta água, este ar, esta solidão antiga. Dói o abraço e o não abraço. Esse barco pirata navegando no rio profundo, traindo os ventos noturnos... essa lua enorme me espreitando como se fosse um olho de Deus. Deus buscando na terra esse ser insignificante que sou eu, como uma espécie de diversão divina. Tenho medo de Deus, mas isso eu não digo. Quando criança, ensinaram-me que Deus era onisciente. Como a criança não tem as atividades abstratas desenvolvidas, eu entendia que Deus era uma espécie de franco atirador e que me acertaria, na primeira tentativa, cada vez que eu mentisse. Provavelmente na testa, entre os dois olhos, segundo a precisão de sua mira e de sua ira. Mentir devia ser o maior pecado e cada vez que era tentada a fazê-lo, lembrava-me (e ainda me lembro) da recomendação: “Deus está vendo”. Ser perseguido por Deus não é pouca coisa! Mas voltemos ao porto, ao casal que passeia com um cãozinho chamado Platão. Será que sabem quem foi Platão? Será que entendem o que é o platonismo? Possivelmente, nunca tiveram um amor platônico. Eu tive muitos. Tenho ainda um. É recíproco, os amores platônicos sempre são. Entendemos-nos quando nos encontramos pelas ruas, ficamos meio tontos, como esse cão girando ao tentar morder o rabo. O silêncio cava fundo em meu corpo. Para ele crio todas as palavras e todas falham se me aproximo. Sonho com ele pronunciando o meu nome, sílaba por sílaba, soprando todos os fonemas com seus lábios de fogo. Sonho com o meu nome crescendo em sua boca, minha mão conduzindo-o a lugares desconhecidos sem tempo e sem contorno. Imagino sua voz a perguntar-me qualquer coisa tola e mesmo sem eu responder, ele saberá o que eu quis dizer. Conhecemos a gramática do silêncio, a paixão sem regra do que é porque não é, porque se fosse não existiria. Daí que é urgente inventar o amor. Reinventar-me como uma intrusa para que eu mesma me ignore e me surpreenda ao ouvi-lo chamar o meu nome.
Mas, logo me recolho a esse porto cheio de desesperanças, porque meu tempo já morreu nesse passado de ontem. Olho para minhas mãos que começam a murchar. Talvez eu tenha começado a envelhecer e os sonhos já insistem menos. Tudo vai se relativizando. Um pássaro e um navio são a mesma coisa. Esta última frase não é minha, mas deveria ser. Sou professora de literatura e deveria ter me dado conta disso. As palavras têm sonhos. A palavra com o movimento dentro é capaz de se automodificar. Tenho o maior respeito pelas palavras. Elas gostam tanto de me surpreender, que às vezes quero ser a dona delas. Mas os humanos, esses, na maioria das vezes, não têm movimento dentro. Humanos são estáticos. A vida inteira pode se dar em um único  movimento, porque é a parte sonhadora que se movimenta, que volta a sonhar outras e outras vezes. A vida  com sonho salta adiante, desafia, contrapõe-se. E quando o amor nos visita, ficamos cheios de pássaros por dentro, às vezes, navios. Nossas mãos sabem dessas coisas que não entendemos, querem tocar o indizível, o platônico ou um tempo de idas e vindas feito por outras mãos. Era uma vez um porto... o que sobra é poesia,  ou uma vocação irresistível para se sentir vigiada por Deus.
                                                                                  Lucilene Machado