Van Gogh, eu e algumas reflexões
Aniversário outra vez. E já foram
tantos os “abris” que me repito por condicionamento. Esboço o mesmo sorriso
diante dos gestos carinhosos e dos cumprimentos efusivos, respondo mensagens de
amigos distantes e até dos que não são tão amigos, mas se dão ao trabalho de me
enviar um cartão online, uma frase pronta... como diz o poeta, tudo vale a pena
se a alma não é pequena. E a alma cresce nesse período, corre atrás de um colo
para se deitar. Quer se aquietar. Talvez seja para se renovar. A alma sempre
necessita um renovo. Precisa se aliviar do passado, desprender-se dos fardos
antigos para recomeçar. É a hora em que nos deparamos com escolhas cruciantes:
“o que devo guardar e o que devo refugar?” é o famoso balanço existencial. Não
sei se alguém é capaz de passar por esse período sem essas reflexões. Para mim é impossível. Sempre sou surpreendia pela voz
da consciência a interrogar: “o que fez de relevante no ano que passou?”
A contabilidade é inevitável. A
princípio, tento evitar as comparações com anos anteriores e suprimir do
balancete, a coluna de saldos. Nada de contabilizar ganhos ou perdas. A vida
além de cumulativa sempre parecerá mal resolvida. Um ano de vida cabe em uma
gaveta. Textos, fotos de viagens, bilhetes, uma rosa seca, CDs, poesias que
escrevi num exercício de libertação, um frasco de perfume vazio, um anel torto,
um sabonete que ganhei de uma amiga, um dente-de-leite de minha sobrinha, uma
declaração de carinho, um amor que ainda não dei nome e saudades, muitas
saudades. Remexo no fundo da gaveta e encontro uma madeixa de meus cabelos que
eram longos em abril passado, como mudamos no decorrer de um ano! Tecemos a
vida com um fio tão frágil e aí vem o tempo, implacável, e rompe tudo. O tempo
é assim, cruel. Faz-nos sentir perdedores neste balanço. Que importa? O mundo
está cheio de perdedores que eu admiro. Há coisa mais elegante que saber
perder? Nessas ocasiões, recordo Van Gogh e sua loucura amarela. Como alguém
tão torturado pôde usar o amarelo daquele jeito? Como alguém tão detonado pela
vida pôde pintar quadros tão alegres? Um suposto perdedor sem a mínima ideia de
dimensão da própria obra.
Eu queria um quadro de Van Gogh
pendurado na parede interna da minha sala para não esquecer que a loucura tem
uma beleza glamourosa. Mas não sei como reagiria se ao invés disso olhasse para
o retrato do autor faltando parte da orelha. A realidade choca, mas não é o que
conta hoje. O que ficou foi a sensibilidade e suas variantes. A ótica da
racionalidade põe limites concretos e ásperos. Admiro os racionais, mas não é a
lógica que administra as atitudes humanas. A lógica se flexiona mediante a
força da intuição. A intuição é automática, não precisa justificar seus mecanismos. E os artistas se
permitem gerenciar pela intuição. Abstratos. A abstração do raciocínio é o que
nos liberta da realidade. O que não vemos é o que de fato está à nossa frente.
E é melhor que não vejamos. As coisas se limitam a ser o que são quando as
olhamos de frente. Nunca olho uma
questão pela frente e, na hora amarela do dia entro no meu quarto como se
entrasse no mar e respondo, intuitivamente, ao vendaval de perguntas que se
enroscam nos meus cabelos, já não tão longos. Mas tenho ainda as orelhas
perfeitas e ouço os rumores do universo desafiando-me com o vazio da
eternidade. A vida é muito mais do que colocamos em balanço. Lembro-me do amor
que se manifestou, de várias formas e intensidade, durante o ano; das boas
conversas, dos rostos que encheram minhas noites, das palavras que me
visitaram. Tive tanto, nem sei se tenho o direito de pedir mais. Se tivesse,
pediria como Salomão, sabedoria. Sabedoria simples que me permita chorar
assistindo ao filme “A bela e a fera” por já ter concluído que os olhos são
enganosos, o coração também.
Lucilene
Machado

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