sexta-feira, 12 de abril de 2013

Van Gogh, eu e algumas reflexões



Van Gogh, eu e algumas reflexões

            Aniversário outra vez. E já foram tantos os “abris” que me repito por condicionamento. Esboço o mesmo sorriso diante dos gestos carinhosos e dos cumprimentos efusivos, respondo mensagens de amigos distantes e até dos que não são tão amigos, mas se dão ao trabalho de me enviar um cartão online, uma frase pronta... como diz o poeta, tudo vale a pena se a alma não é pequena. E a alma cresce nesse período, corre atrás de um colo para se deitar. Quer se aquietar. Talvez seja para se renovar. A alma sempre necessita um renovo. Precisa se aliviar do passado, desprender-se dos fardos antigos para recomeçar. É a hora em que nos deparamos com escolhas cruciantes: “o que devo guardar e o que devo refugar?” é o famoso balanço existencial. Não sei se alguém é capaz de passar por esse período sem essas reflexões. Para mim  é impossível. Sempre sou surpreendia pela voz da consciência a interrogar: “o que fez de relevante no ano que passou?”
            A contabilidade é inevitável. A princípio, tento evitar as comparações com anos anteriores e suprimir do balancete, a coluna de saldos. Nada de contabilizar ganhos ou perdas. A vida além de cumulativa sempre parecerá mal resolvida. Um ano de vida cabe em uma gaveta. Textos, fotos de viagens, bilhetes, uma rosa seca, CDs, poesias que escrevi num exercício de libertação, um frasco de perfume vazio, um anel torto, um sabonete que ganhei de uma amiga, um dente-de-leite de minha sobrinha, uma declaração de carinho, um amor que ainda não dei nome e saudades, muitas saudades. Remexo no fundo da gaveta e encontro uma madeixa de meus cabelos que eram longos em abril passado, como mudamos no decorrer de um ano! Tecemos a vida com um fio tão frágil e aí vem o tempo, implacável, e rompe tudo. O tempo é assim, cruel. Faz-nos sentir perdedores neste balanço. Que importa? O mundo está cheio de perdedores que eu admiro. Há coisa mais elegante que saber perder? Nessas ocasiões, recordo Van Gogh e sua loucura amarela. Como alguém tão torturado pôde usar o amarelo daquele jeito? Como alguém tão detonado pela vida pôde pintar quadros tão alegres? Um suposto perdedor sem a mínima ideia de dimensão da própria obra.
            Eu queria um quadro de Van Gogh pendurado na parede interna da minha sala para não esquecer que a loucura tem uma beleza glamourosa. Mas não sei como reagiria se ao invés disso olhasse para o retrato do autor faltando parte da orelha. A realidade choca, mas não é o que conta hoje. O que ficou foi a sensibilidade e suas variantes. A ótica da racionalidade põe limites concretos e ásperos. Admiro os racionais, mas não é a lógica que administra as atitudes humanas. A lógica se flexiona mediante a força da intuição. A intuição é automática, não precisa  justificar seus mecanismos. E os artistas se permitem gerenciar pela intuição. Abstratos. A abstração do raciocínio é o que nos liberta da realidade. O que não vemos é o que de fato está à nossa frente. E é melhor que não vejamos. As coisas se limitam a ser o que são quando as olhamos de frente.  Nunca olho uma questão pela frente e, na hora amarela do dia entro no meu quarto como se entrasse no mar e respondo, intuitivamente, ao vendaval de perguntas que se enroscam nos meus cabelos, já não tão longos. Mas tenho ainda as orelhas perfeitas e ouço os rumores do universo desafiando-me com o vazio da eternidade. A vida é muito mais do que colocamos em balanço. Lembro-me do amor que se manifestou, de várias formas e intensidade, durante o ano; das boas conversas, dos rostos que encheram minhas noites, das palavras que me visitaram. Tive tanto, nem sei se tenho o direito de pedir mais. Se tivesse, pediria como Salomão, sabedoria. Sabedoria simples que me permita chorar assistindo ao filme “A bela e a fera” por já ter concluído que os olhos são enganosos, o coração também.
                                                                       Lucilene Machado

quinta-feira, 4 de abril de 2013

PEQUENOS OUTONOS





Pequenos outonos

                O outono chegou ontem pela noitinha, contrariando todos os calendários. Percebi sua chegada quando a música de um violino tingiu com vinho as pálpebras dos olhares. Pressuponho que fui a primeira a absorver o encantamento, a primeira a reconhecer o início das indecifráveis ternuras. Outono é o tempo das paixões tardias, dos instintos aguçados, do brilho das estrelas  derramado sobre as noites, da carne sendo tocada pelo espírito... O outono é a compensação do que não foi aproveitado na  primeira etapa da vida, quando orgasmos se precipitavam na juventude no desejo.
            Se o velho Drummond estivesse ao meu lado, na hora em que o som do violino calou as últimas notas do estridente verão, se me emprestasse o seu verbo conjugado às últimas declinações, se me emprestasse o seu olhar que penetrou o mundo vasto mundo, e sua mão cheia de humanidade, com certeza eu seria capaz de narrar com preciosos detalhes a sensação de completude que o vazio do outono trouxe.
            A pressa dos homens a correr dentro da noite, a caçar algo que não sabem, por um momento dissipou-se. Um jovem, com um violino, lentamente invadia com suas mãos, nossos sentidos desacostumados de arte. Veio como uma luz projetando beleza aos presentes. Seus olhos palpitantes atravessaram-me como uma flecha. Um homem com quem se pode morrer, pensei precipitadamente. A morte como uma sagração da qual só os mais puros são dignos. Muita gente desaparece, desintegra, mas só uma minoria morre. Poucos conseguem rasgar o véu de alto a baixo. A sublime nudez da morte só é oferecida aos sensíveis. Toda mulher, depois dos quarenta, carrega uma morte silenciosa no olhar. Uma morte que navega pelo sangue e arde como brasa. A beleza é transformada em intimidade acolhedora, pronta para adivinhar, num instante, a eternidade inteira.
            É no outono que a juventude se vinga, sonha alto as coisas da loucura. Nutre-se dessa poesia que se avoluma a cada dia que passa. De repente, o mundo inclina-se para um lado da noite, uma música risca as paredes, um olhar arranca as capas da nossa aparência, uma palavra, um suspiro... e a vida inteira está ali, como um grande acontecimento. Sentimo-nos criaturas magnetizadas, etéreas e quase conseguimos penetrar, pela fístula da lembrança, o tempo em que fomos anjos. A leveza da existência agita suas echarpes flutuantes diante dos nossos olhos. Tudo é instante.
            Mas não se pode manter essa abstração por muito tempo. De modo que voltei ao plano concreto de charutos e licores, de gravatas listradas, bolsas de grifes e demais atributos exteriores que movimentam o mundo. O moço do violino, que nos levou a acariciar a felicidade, dava voltas com o garfo num prato de espaguete. (Músicos clássicos não deveriam comer em público). A boca que imaginei rescender gengibre, mastigava minhas ilusões. Os lábios carnudos, que julguei sensuais, pareciam  inchados, picados por uma abelha. Àquela altura, teria a cabeça povoada por preocupações pessoais, contratos, conta bancária, senhas... já não era o homem com quem requintadamente eu desejei morrer. A pressa voltou a circular velozmente entre pratos e garrafas enquanto  me afastei com um ar de espanto, o mesmo ar que corta o meu pensamento e o põe do avesso nessa folha de papel. 
                                                                  
  LUCILENE MACHADO

sexta-feira, 1 de março de 2013

DESERTOS E OUTRAS INFINITUDES




  

Desertos e outras infinitudes

Existem desertos em muitos lugares. Reparo, sem nenhum espanto, que não preciso inventá-los com as areias secas e ásperas do Saara, eles existem além do espaço e do tempo a que foram destinados. Há lugares que  criam verdades só pelo fato de estarem expostos, e o deserto é uma verdade absoluta. A verdade do nada, da ausência, do que não é, por não suportar subexistir. É o silêncio do olhar que sabe ver o tempo esvair-se.
Aqui desse apartamento, preciso alongar e contorcer o pescoço, muitas vezes, para tentar ver o nada. Detrás das construções vizinhas há uma paisagem exuberante, dessas que povoam as páginas da  National Geographic, porém escancara, a cada metro quadrado, uma alma vendida; escancara a sombra de uma culpa que aliena a inteligência. O pântano verde, cercado por arames farpados, limita o alcance do olhar. E eu preciso de infinito, preciso de todos os desertos para receber o maná dos céus. Deus vive no silêncio do deserto. Quarenta anos alimentando um povo que ignorou a verdade do amar. As paixões tremulavam sob o sol como uma deliciosa rival do amor, mas não foram suficientes para acolher o segredo de Deus. Só o amor suporta o nada. O amor de Penélope suportou a ausência surda do rei de Ítaca, suportou a falta de palavras, a falta de respostas... seu aposento cheirava ao enigmático e sufocante silêncio que só as pessoas predestinadas a amar podem sentir. A narrativa épica conta que ela tecia e destecia, e no tear trançava a certeza de que Ulisses iria voltar, e voltou.
Creio que o dom da espera pertence às mulheres. Mesmo inconscientemente, esperamos a vida nos possuir da melhor maneira possível. Às vezes, armamos defesas,  estratégias de recepção para os dias imprecisos. No tempo das ternuras, pintamos a boca com vermelho guerra, sinalizando  desejos inconfessáveis e esperamos o gesto que arrancará  os véus  de nossa sublime condição de fêmea. Mulheres têm os joelhos firmados na esperança, esparramam-se no noturno dos sonhos, fazendo da vulnerabilidade o seu maior heroísmo.
Mas, às vezes, o deserto da espera é extremamente longo. Tão longo que nos habituamos a ele e, se alguma umidade sobe pelos nossos pés, julgamo-la  traiçoeira. O crepitar do sol atroz, que esfola nossas peles, é o mesmo capaz de criar uma delicada couraça de proteção, um amor-próprio que prefere seu próprio deserto, acima de todas as coisas. O deserto da palavra não pronunciada, das páginas em branco, da solidão aberta, do conforto em estar só e da sinistra ausência do amor que não veio no tempo esperado.
Em dias como hoje, quando penso a beleza da aridez plasmada nos rostos endurecidos, sinto-me de mãos vazias. Toda solidão à qual nos abandonamos transforma-se em uma nudez verdadeira que não pertence ao mundo real, porque o mundo real não é feito de verdades, é feito de insolências, remorsos e uma indiferença estrábica a nos olhar de soslaio. Daí o meu contorcionismo para procurar o deserto, para ouvir o barulho do vento, ver o  vazio do mundo girando em torno de mim e sentir sob a pele o toque sedoso e aveludado da eternidade. Porque a eternidade é um deserto em que se atravessa, só.

Lucilene Machado

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Claricianas XI






Claricianas XI


Deito-me no noturno dos caminhos percorridos.  Estico minha preguiça às estrelas. Os silêncios, de que sou feita, me liquefazem. Sei como inventar um pensamento, mas recuso essa força visceral. Não quero minha parte humana a dominar o corpo. Sepultei meus sonhos na imagem de um homem. Mas os sonhos não foram capazes de torná-lo real. Agora sou amiga do tempo. Conversamos por telepatia. De vez em quando  ele me dá uma prova de vida, como o instante que se quebra, agora, diante do meu olhar e desamarra as possibilidades de algo premeditado. Mas minha felicidade é ainda um caracol que o tempo custa a desenrolar. Carrego nas costas essa espiral realista. Às vezes não falo, para não entristecer mais a vida. Em outras, como agora, não falo para não ser obrigada a pensar. Pensar é pontuar a vida. É colocar um ponto infeliz ao final de qualquer frase. Há muitos pontos desnecessários. Eu tenho vários deles trancando minha história. Caixa denpandora com tantas emoções resguardadas. Tudo velado pelo medo de parecer frágil, parecer fácil, parecer humana demais. Quem nasce mulher tem a obrigação de ser forte, alertava-me minha avó desde cedo. Ser forte é apalpar o vazio da ausência sem chorar. Por isso essas mãos escalavradas. Esses traçados tortos na linha do meu destino. Minha filha nunca será forte, mesmo que um dia resolva nascer mulher.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Claricianas I





Claricianas I
                             Lucilene Machado

Às vezes me ocorre um pensamento mais rebuscado. É um sentir que não sei escrever. Escrevo sobre amor e o amor é pesado de sonhos. Meus pensamentos são esses fios invisíveis apertando o coração. São essas correntes primárias  convergindo para um mesmo rumo. Todas as ruas levam à dor. Ainda assim tenho esperança. Sou doente da esperança da paixão. Já comi pétalas de rosa vermelha. Mas isso não conto. Também não sei se é necessário. Enfim, o que posso dizer que seja necessário? Nem eu sou necessária. Vivo no superlativo, mas só me é aproveitado o mínimo. Os homens se contentam com o mínimo que pode ser encontrado no corpo. E o meu corpo se parece com todos os outros. Eu seria igual, não fosse essa tristeza vertical escorrendo por minhas veias e artérias. Uma dor sincera que passeia insone sobre minha geografia. Eu amo as pessoas na medida em que elas vão me esquecendo. Meu amor é um pedido silencioso de socorro para que voltem e retirem o espinho cravado na carne. Mas as pessoas são medrosas. O mundo jaz no medo. Medo de amar. Fui ao psiquiatra porque tinha fome de amor, ele me ofereceu tranquilizantes. Continuo incurável.