sábado, 19 de março de 2011

PROCURA-SE UM CÃO




















PROCURA-SE UM CÃO

Vi na marquise de uma das paradas de ônibus da calle Menendez Pelayo o anúncio de um cão desaparecido. O que não deveria ser motivo para uma crônica. Mas, ficar calada é uma ciência por demais complicada para mim no exercício de viver em um tempo intenso e quase sem substância. Talvez o meu prazer seja mesmo essa vida menor. Essa que não tem destaque nos jornais, que é alternativa e um pouco rebelde. Uma vida comum de café com vizinhos, pão na padaria, poesia na rua... uma realidade de gente que, como eu, usa transporte público, guarda-chuvas e sapatos baixos, e às vezes, por uma distração qualquer, perde um cão da raça chow chow, cor camurça, pelos suaves, orelhas pequenas e redondas e um colar na parte superior da cabeça, o que lhe dá o aspecto de um leãozinho. Boa gratificação a quem encontrá-lo, crianças sofrendo, ressalta o cartaz, além de  acrescentar que o cão tem a língua negro-azulada, o que pode ser um detalhe importante para alguém que, como eu, só teve na vida legítimos cães vira-latas de língua vermelho-esbranquiçada.
Entrei no ônibus com o contorno do animal na cabeça, pensando que poderia ser emocionante tropeçar com ele e dar alegria a uma família. Desde a janela lancei um olhar comprido até o parque do Retiro, do outro lado da rua... Com certeza o cachorro perdido estaria no parque. Sujo, faminto ou adotado por outra pessoa. A última opção seria a mais provável, o que não me  impediria  reconhecer a gravata de leão, a juba suave, a língua azul... até comecei a cantar em pensamento a música do Caetano: “gosto muito de te ver leãozinho, caminhando sob o sol. Gosto muito de você leãozinho, para desentristecer”. Um pensamento perverso passou por minha cabeça: ficar com o cachorro para mim. Claro que meu bom senso não iria ceder a tal ponto, sou uma mulher honesta. Talvez ficaria somente um diazinho, ou dois... o tempo necessário para voltar a casa e ser recebida com uma alegria gratuita que só os cachorros podem oferecer.
Um senhor berrando ao telefone celular as desgraças de sua intimidade afastou-me do meu leãozinho. Por certo, é alguém que nunca teve um cão. Tampouco terá a foto estampada num cartaz de desaparecidos. Há um tipo de pessoas que não desaparecem nunca, sobretudo as que gritam. Por outro lado, reparei, e já faz algum tempo, que os donos de cães são  diferentes dos demais, tem qualquer coisa de especial,  para eles as coisas são mais coisas. Os outros, como lhes faltam o instinto, são donos de si mesmos. Que me perdoem os tais “outros”, posso falar, de cadeira, porque também me incluo na classe, só tenho um cão imaginário, e seria demasiada concessão colocar-me no mesmo patamar daqueles que levantam de manhazinha, no frio, para levar seus animais a passear, que recolhem as fezes dos bichos pelas ruas, que os levam ao veterinário, compram comida, dão banho, escovam o pelo e providenciam um espaço para estes dormirem, mesmo que em um apartamento de cinqüenta metros. Para dizer a verdade, eu os aplaudo e rechaço tudo o que  pode haver de incoerência nessa minha paixão repentina por leãozinho. Mas fato é que não consegui desvencilhar-me de meus pensamentos caninos.
Voltei a tempo de meter-me no parque a procura do cão. Nesta época, as árvores não têm folhas e as flores tem  cores pálidas e transparente. Não é tão difícil encontrar um animal camurça dentro dessa verticalidade cinza. Deixei a intuição conduzir-me, segui o latido melancólico que zumbia em meu ouvido, enquanto a razão me mandava voltar imediatamente para a casa. Seria o mais sensato, mas, meu texto segue  farejando esse cachorro de pedigree ficcional para fazer dele o protagonista de uma história feliz. Sinto-me com a mesma alma de quem teve um cão e o perdeu. Se alguém tem uma sugestão ou alguma idéia, ainda que incerta, serão bem aceitas. Cronista padecendo de  literaturosis vê esfumar sua aspiração poética junto com um leãozinho no Parque do Retiro. Aqui me quedo, como dizem os espanhóis, com o coração latindo. 
                  Lucilene Machado

quarta-feira, 2 de março de 2011