sábado, 4 de dezembro de 2010

Almodóvar, Che Guevara e as bonecas russas






Almodóvar, Che Guevara e as bonecas russas

          Quando cheguei a Madrid pensei que encontraria uma população muito parecida com os personagens de Almodóvar. Passaram-se um, dois, três meses e o que encontrei foram mulheres elegantes, vestindo Dior, homens discretíssimos em seus ternos de El corte ingles, e uma harmonia de cores que nem de longe lembra os filmes do espanhol. Nada de mulheres com flores no cabelo, nada de beijos marcados e estalados, nada de cores chocantes, nada de personagens exagerados... e quando eu já estava quase convencida de que o mundo de Almodóvar só existe na ficção, eis que tomo um taxi onde me senti em uma película do cineasta. Não chegava a ser um taxi como de Mulheres à beira de um ataque de nervos, mas o conteúdo tão impressionante quanto. Aliás, “conteúdo” foi uma das primeiras palavras pronunciadas pelo condutor, quando eu quis fazer referência à originalidade do carro, na verdade, ao que estava dentro do carro. “Há uma diferença entre continente e conteúdo”, falou com a mesma imponência em que são ditas as grandes verdades. Eu odeio as verdades absolutas, de modo que armei minha tenda de defesa dentro daquele continente cinematográfico, cuja viagem interior poderia ser mais intensa que a proporcionada pela calle de Alcalá, uma das ruas mais extensas de Madrid.
          Começo pelas frases em neon, capas coloridas nos bancos, um babado com brilho a laser no câmbio, revistas, balas, bailarinas penduradas, espelhos, porta-copos, porta-flores e um objeto que chamou muitíssimo a minha atenção: uma boneca russa de Che Guevara.
          Eu já fui apaixonada por bonecas russas. Na verdade, ainda sou. Vez por outra, compro uma. Mas quando eu era criança lá em Terra Rica, isso era um sonho impossível. Não havia bonecas russas brasileiras e, sobretudo, tínhamos uma vida muito apertada para comprar uma boneca importada. Uma prima que morava no Rio, cuja família era muito mais desafogada que a nossa, tinha uma boneca russa. Era algo que me enlouquecia. O fato de abrir uma boneca e encontrar outra boneca idêntica em tamanho menor e depois outra e depois outra... até uma bem pequenina do tamanho de um dedal, me encantava. Ficava imaginando os seres humanos assim. Dentro de cada mãe havia outras mães idênticas em tamanhos menores... a mim mesma me imaginei com outras tantas para dentro até chegar ao mais profundo de mim. Mas boneca russa de Che Guevara, eu jamais havia visto, sequer imaginado. Dentro daquele Che de roupa escura e boinas negras, haveria outros guevarazinhos de vários tamanhos até chegar ao núcleo da representação guevariana. Confesso que tive vontade de abrir, e colocá-los todos lado a lado, para não me esquecer de que tudo é representação, estética, ou como diz o taxista, continente. Ou talvez, a vontade de abrir seja fruto de uma esperança boba de que no final eu possa encontrar algo diferente, algo que não seja uma pequena representação oca, alguma idéia iluminada. Entretanto as bonecas são seu próprio continente, sem nenhum conteúdo.
          A realidade também é assim. Feita de formas e simulacros. Aos poucos vamos aprendendo a conviver com todo tipo de representações, contornos, similitudes... Com pessoas ocas que têm como conteúdo mais eficaz, a própria imagem. Os humanos também são simulacros de si mesmos, estão vazios, e tenho de concordar com o taxista que, a esta altura, se aproveita da minha introspecção para costurar o trânsito numa velocidade de corrida automobilística: “Senhor, pode ir devagar que não tenho pressa”. Ele olha para trás por um tempo maior do que deveria e responde que já estamos chegando. “Eu disse o contrário”, tento gritar, e ele volta a olhar para trás enquanto o carro segue desenfreadamente. “Senhor, eu tenho medo”. Mas ele não pára de falar, fazer gestos e resmungar palavrões para aqueles que resolveram cruzar a rua justamente no momento em que seu automóvel tem que passar. Seguro as alças desde o assento traseiro e fico com a mesma expressão estática do Che que me olha do além. Por minha cabeça passa um pensamento peregrino de que se sofrêssemos um acidente e os nossos corpos se partissem, seriam encontrados, junto aos bonecos de Che, dezenas de bonecos dentro de outros bonecos, tristemente vazios, mas com as cores e a estética dignas de um Almodóvar.


Lucilene Machado

segunda-feira, 15 de novembro de 2010


caricatura - blogscarin.com


Um desconhecido, Borges e eu

O metrô é um dos espaços mais democráticos de Madrid, também é um dos mais interessantes quando se quer refletir a própria condição de ser em relação ao outro. Sempre é possível encontrar o nosso extremo oposto, como também uma infinidade de pessoas com quem nos identificamos.  Por exemplo, o moço de rosto desconhecido que está sentado à minha frente e que lê uma edição inglesa dos contos de Borges está muito mais próximo de mim do que muita gente que eu vejo diariamente. Isso pelo simples fato de sustentar nas mãos esse livro em particular. Não, não é um simples fato, isso é uma ocorrência que pode determinar parte da personalidade dessa pessoa que eu nunca vi antes. Posso supor, entre outras coisas, que o homem que lê Borges no metrô  seja um intelectual inglês e que está na Espanha para estudar literatura de língua espanhola, o que nos faz ainda mais cúmplices. Ou, talvez seja apenas um jovem senhor inglês que nunca ouvira falar antes de Borges  e, sem nenhum preventivo, arrisca-se, diante de todos, a desvendar  o universo fantástico do autor. Nesse caso sinto pena. Lembro-me da minha primeira vez. Da voz borgiana a contornar meus sonhos impossíveis e a dizer para eu  ir  além, um pouco mais do que consigo chegar. E eu com aquela sensação de abismo próximo,  de que é melhor me manter distante, não fazer nenhum pacto com aquela voz cega,  não me aproximar daquelas mãos  tecedoras de lendas que fatalmente irão me perseguir pela noite afora, etcétera e tal.  Tão forte o impacto que tenho vontade de dizer ao moço: “desista! Essa infinidade de palavras parece dizer apenas uma coisa: bando de idiotas.” É assim que me sinto quando leio Borges.  Creio que a manifestação dialógica mais profunda dele está situada em outro plano da psique, o que me (nos) leva a padecer de um estranhamento incógnito.  Impossível  reter Borges  num curso de começo, meio e fim. Tudo se apresenta como facetas,  como elos que não sabemos  articular. Fica uma ansiedade, um tremor, uma nostalgia de que alguma coisa estava ali, talvez tão perto de ser desvendada, mas escapou.
            De onde estou, sigo anonimamente a observar o desconhecido. Quisera chamar sua atenção  e sinalizar que eu também pertenço a essa fé. Também já senti  admiração, paixão e até ódio por esse escritor argentino que cada leitor recria à sua maneira. Mas o moço não se dá conta do meu reconhecimento. Não percebe que somos ilhas de um mesmo arquipélago, que tenho vôos de gaivotas no olhar e que poderíamos juntos sobrevoar todo o mapa da América latina sem sair desse trem. Poderíamos fazer nossas realidades superar quaisquer dúvidas nesse campo de incertezas em que eu e ele circulamos. Poderíamos comprovar uma série de convergências pelas quais lutamos separadamente  e sem nos conhecermos, mas que agora encontravam-se nessa ponte metafísica engenhada pela literatura. Mas... (detesto as reticências) o que se abre nesta tarde é apenas  um bocejo sonolento da boca de um desconhecido que deixou de se apresentar a mim por pura falta de atenção. Também me recusei a incomodá-lo indo me apresentar. Há tantas maneiras melhores de conhecer pessoas. Todavia, mais fáceis. Apresentar-me nessa altura e condição era uma concessão ligeiramente piegas, imposta à nostalgia de um tempo em que ler o mesmo livro era fator de identificação, que a memória recolheria algumas palavras, alguma distração do autor, algum susto que nos deixaria de almarrepiada, ou nos faria chorar durante a noite com a cara metida no travesseiro e as mãos sabe-se-lá onde...  
E outra vez a reticência. Agora para dar passagem ao homem que desceu sem me fazer caso. Toda falta de interesse se paga com uma perda – creio que foi Borges quem disse isso. Pensei, com alguma tristeza, no longo período em que as emoções estéticas deixariam de existir e com falsa indiferença fiquei olhando o homem afastar-se como se tivesse apenas se afastando. Como se isso fosse uma ação corriqueira e comum. Enchi meus olhos com a realidade estúpida e solitária e até o final da viagem deixei de pensar nas coisas que perdemos sem saber que as  estamos perdendo.

Lucilene Machado 

sábado, 23 de outubro de 2010

UMA VOCAÇÃO PARA MOSCAS


Uma vocação para moscas

          Às vezes me sinto um blefe. Como se estivesse em um lugar que não merecesse estar. Com a sensação de que meus algozes vão descobrir que eu não sou quem sou e me vão atirar no fundo de um vazio oco onde estarei para sempre voando em círculos como uma mosca tonta. A bem da verdade, já me sinto uma mosca. Uma tese para escrever e, em contrapartida, uma apatia surda fechando todos os nascedouros do pensamento. Se é que o pensamento tem um nascedouro de onde jorram as palavras que necessitamos para escrever. Com certeza, alguns privilegiados têm esse nascedouro. Wolfgang Iser tem. Theodor Adorno também. Clarice Lispector, para citar uma mulher, devia ter vários nascedouros. Um para cada estado de espírito. Eu, não. E se tenho a obrigação de pensar, penso em nada. Quanto maior o esforço, maior a nuvem de fumaça. Em pouco tempo concluo que o pensamento não nasce. Que o pensamento é um produto de segunda mão que pode ser adquirido a preços módicos, às vezes gratuitamente, conforme a necessidade do freguês; que o pensamento já está pensado e o que fazemos é apenas adaptá-lo aos nossos interesses. É certo que devemos estar atentos. Como em todos os ramos mercantilistas, pode-se comprar pensamentos com prazos de validades vencidos, deteriorados, outros que não se podem comprovar, utópicos, disfarçados, enganosos, mesquinhos, enredadores ou mesmo fatais. Difícil é encontrar o pensamento que possa representar a nossa identidade. Na falta dele, repensamos com os padrões divergentes. Começamos por contrariá-los, depois cortamos as arestas do que vai sobrepujar nosso limite teórico, eliminamos o que julgamos ser impurezas, acrescentamos certos adornos e o vendemos, também, agora com a nossa assinatura.
          Apesar de parecer um raciocínio simplista, trata-se de uma engenharia tão complexa como a construção de uma ponte. Creio que “ponte” é a metáfora exata para à situação, pois é o que nos permite atravessar o vazio e conectar nosso mundo com outros. Não é por acaso que pontífice, antigamente, significava construtor de pontes. A palavra vem do latim pons=> pontis, e o sufixo ífice significa construtor. Logo, pontífice é, primariamente, um construtor de pontes. Infelizmente, hoje está restringida para designar papas e arcebispos, que também não deixam de ser construtores de pontes, já não de concreto, nem de ferro, mas pontes espirituais. Claro que o uso não deveria ser tão reducionista. Há outros setores humanos edificando pontes. Algumas com uma arquitetura muito simples, mas com resultados extraordinários. Há até as pontes que vão do nada ao lugar nenhum, propostas por uma política de marketing, favorecimentos e etc. Trafegar por elas é muito arriscado, provavelmente se cairá no vazio. E o vazio é um lugar para moscas.
          Tomo um banho, lavo a cabeça com água fria para me livrar desses pensamentos inaproveitáveis, dessa poluição que lateja em meu cérebro, aleatoriamente, e me faz escapar do canal intelectual sem que eu tenha sinalizado nada. Preciso de pensamentos que façam avançar meu raciocínio, como fazem os filósofos. Os não-sofistas, pressuponho. Mas para canalizar esse pensamento é preciso livrar-me do resto. Mente limpa, mente sana! penso enquanto seco o cabelo. O espelho é um lugar ótimo para se forjar idéias frívolas e fazermos delas os sustentáculos dos nossos sonhos. Sobretudo quando somos mulheres. A vaidade nos proporciona um prazer incomensurável. Ao mesmo tempo é uma violência que pode nos destroçar. Criamos argumentos miraculosamente fúteis para justificar nossas ações. E a ação é uma prática determinada pelo pensamento. É tão perigosa a vaidade, pode fazer-nos verdadeiras moscas dependentes do pensamento alheio. Há uma indústria criando verdades para os vaidosos, erigindo ciladas em todos os níveis. E quem nunca caiu em uma, que atire a primeira pedra. A vaidade nos deixa débeis e facilmente reconhecíveis. Somos presas fáceis das promessas miraculosas. Falta-nos criticidade? Óbvio que sim. Bom senso também. A propósito, observo meu cabelo que me parece bastante opaco. Examino as pontas, olho as raízes... quem imaginou que eu abandonei a tese para alimentar a vaidade, acertou na mosca.

Lucilene Machado

domingo, 3 de outubro de 2010

ROSAS ROJAS



ROSAS ROJAS

        Aquel hombre cabía entero en los ojos de ella. Cabía en sus manos suaves y ávidas por acariciar. Sería capaz de envolverlo con la tela de sus sentidos. Emboscadas de manos y miradas. Miento, los ojos no ven nada cuando las manos son tentáculos de hembra carnívora. Era un hombre que tenía el tamaño exacto de su deseo. Encajado en sus contornos, íntimos de axilas y muslos, harían la sublime coreografía del amor. ¿Cómo sería su aliento, su aroma... su cuerpo mojado de pasión?
        Por él sería capaz hasta de convertirse en una auténtica ama de casa, inclusive cocinar y lavar ropa. Sería capaz de almidonar y planchar sus camisas blancas una a una, mientras él le besara la nuca, encontrando sensual su aire despojado de entrecasa, y le preguntase en susurros: «¿Estás vestida así para mí?» Claro que sí. Vestida y desvestida, siempre para él. Ahí, él se aprovecharía de la fragilidad de ella y realizaría sus fantasías de macho detrás de puertas y ventanas. ¿Aquel hombre de metro ochenta fantasearía con mujeres frágiles y desvalidas? Por supuesto que no. Parecía más bien una roca inconmovible. Un hombre de alma helada e impenetrable. Individualista, pagado de sí mismo... un verdadero narciso.
Bien, no podía quejarse tanto, hasta que él demostró interés en sus ideas. Y aún cuestionó si ella estaba comprendiendo su punto de vista. «¡Sí! ¡No!» Ella tartamudeó al decir lo que pensaba sobre las relaciones. Las mujeres especiales suelen confundirse. Y los hombres demoran a descubrir eso. ¡Hombres, tan directos y objetivos! La encontró tensa. ¿Tensa? ¡Por favor! Apenas quería las cosas formalizadas. Era romántica... «Romántico también lo soy yo, cariño». Se sintió ingenua. No, más que eso, se sintió infantil. Ni sabía ya lo que era romanticismo. “¿Cómo podría pensar en compromisos y formalidades después del cambio de siglo? Ahora las cosas sucedían espontáneamente a su tiempo. ¿Comprendes?”, preguntó él sin mucho interés en la respuesta. Pero ella sentía la ansiedad pulsando en su piel y precisaba dar una respuesta para mantener el equilibrio de la charla y dejar clara su reputación. Y habló. Sus argumentos jamás habrían de convencerlo, pero no por ello dejó de ser auténtica. No si acostaría con él sin que se estableciesen vínculos de intenciones futuras. ¿Acostarse? No, él habló de noche de amor. Así, sin muchos rodeos, del mismo modo en que la había invitado a cenar.
        Mientras ella hablaba, él se distrajo varias veces mirando a los transeúntes. ¡Qué aburrimiento! Había perdido la noche invirtiendo en una mujer con conceptos ya superados, pasados de moda. ¿Reputación? ¿Y cómo iba él a adivinar? Creía que ya no existía esa especie de mujer... Y pensar que la había escogido a dedo. ¡La más hermosa mujer de aquella noche, y cómo bailaba! Esperó una semana para el encuentro, estaba lleno de expectativas... ¡Pensó en todas las posibilidades! Sería capaz de enloquecerla entre cuatro paredes. Besaría suave su cuello delgado, la oreja, la boca... le haría masajes, caricias, y sorpresas de las cuales ella jamás se olvidaría. Ella iba a quemarse en la fiebre y le devolvería los ojos verdosos encendidos, enmarcados en el castaño rojizo de su pelo. Sería capaz de llevarla en brazos hasta la cama, o simplemente apreciaría su andar de bailarina, que ahora ya no baila pero mantiene la gracia y la cadencia. ¿Cadencia? No, es que ella tenía vocación. Vocación para la ligereza, como una mariposa que bate las alas, posándose de flor en flor. Sería capaz de enviarle a ella una docena de rosas rojas al día siguiente. Tal vez fuese mejor rosas blancas... no, lo mejor eran las rojas. Las mujeres adoran las rosas rojas. ¿Y por qué no? Sólo que no le daría el número de teléfono, eso no. Ella podría llamar e insistir en que pasaran el domingo en el parque, o quién sabe, quisiera una cena íntima preparada por ella. La segunda opción podría ser irresistible. Ella en un vestido negro ajustado al cuerpo, sin breteles... cena a la luz de las velas... pero, y si ella insistiese en presentarle a los hijos, mostrarle el perro, el gato... fotos viejas, ella bailando en el Municipal... ¡No! No quería perder el tiempo con eso. Después hasta podría pensar que él era su novio. Qué cosa anticuada, una mujer llamando a su trabajo, preguntando dónde había cenado, dónde había pasado la noche... ¡Eso no! Sabía cuánto costaba la libertad. No tendría más paciencia para ser marido, novio, o cualquier papel semejante. En un gesto sutil llamó al mozo y pidió la cuenta.
        Ella bajó los ojos tristemente. Sobre la mesa, esculturas que había hecho con miga de pan. Aplastó con el dedo una hormiga roja y solitaria que surgió arrastrándose, como implorando una migaja. ¡Oh, Dios! Migajas, era eso. En el mantel blanco, el rastro enojoso. Era el cuerpo. Pan partido, vino derramado. Jamás tendrían esa comunión. Se sintió indignada. Se retiró sin esperar ninguna gentileza. Apenas algunas palabras así, al acaso, como «gracias por la invitación» y «gracias por la compañía». Podría haber resistido un poco más, pero era muy delicada. Y los delicados tienen poca resistencia. Resta decir que apenas sé que ella pasó el día siguiente arreglando su casa. Cortando, delicadamente, con una tijerita de uñas, los cabos de un bouquet de rosas rojas. Hacía eso con extremo placer. Después las colocaba una junto a otra dentro de un jarro de agua. Todas con el mismo corte oblicuo y el mismo tamaño. Se obligó a comprender que las rosas no hablan, jamás. Ni siquiera las rojas.

Lucilene Machado

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O CAMINHO SECRETO DAS PALAVRAS


O caminho secreto das palavras

      Uma amiga disse para eu não usar a palavra “desgraça” em meus textos. Falei a ela para não avaliar a palavra com o rigor do uso, que a palavra é arbitrária, que guarda dentro de si o espírito das civilizações e coisa e tal, mas minha amiga não gosta da palavra e ponto. E contra isso não há argumentos. Devo dizer que também não me agrada o significado que “desgraça” atualmente comporta. Agrega uma única unidade de pensamento que sugere uma única idéia, a do infortúnio, da miserabilidade, do fim da dignidade, do irreversível. O prefixo “des” passa des-percebido. Não nos atentamos de que o “des” significa ausência, logo desgraça significa “sem a graça”.
      A palavra “graça”, que é de onde se origina a desgraça, é uma palavra linda, poética e sagrada. Vem do latim gratia, que deriva de gratus (agradecido) e que em sua primeira acepção designa a qualidade ou o conjunto de qualidades que faz agradável a pessoa que a tem. Razão porque algumas pessoas mais idosas costumam perguntar “qual é sua graça?”, significa que o sujeito, segundo a doutrina cristã, recebeu a graça de Deus e, junto com a graça, o nome. Nome na cultura bíblica é o mesmo que identidade íntima, o mais verdadeiro de mim mesmo. Também há outra pergunta enraizada na cultura popular que é: “quando você vai nos dar o ar de sua graça?” que seria o mesmo que dizer “quando poderemos contar com sua presença?”. Presença, neste caso, é igual à graça. Também tem aquela graça que equivale ao carisma: “fulano é uma graça”, ou como diria Hebe Camargo “ela é uma gracinha”. E, além da identidade, presença e carisma, não dá para deixar de fora aquela “graça” que faz rir. A graça engendrada pelos humoristas ou por pessoas chamadas “engraçadas”, um derivado com prefixo e sufixo.
      Graça é também um conceito fortemente arraigado no judaísmo que significa dom gratuito de Deus. Antigamente para os judeus, alguém que não tivesse onde dormir, alguém que se alimentasse ou se vestisse mal era considerado sem bênção, automaticamente, sem a graça de Deus. Ao ver alguém nessa situação, os judeus proferiam: “este é um sem bênção e sem a graça de Deus”. Na medida em que o tempo foi passando, a frase foi se encurtando e sintetizada para “este é um desgraçado”, o que para os judeus significa, ainda, sem a graça de Deus.
      O que percebemos é que a palavra primitiva “graça” tem toda uma carga histórica, ideológica, religiosa, popular entranhada em seu significado. E em todos os segmentos em que se manifesta, apresenta uma conotação positiva, altiva e bela. Porém se acrescida do pequeno prefixo “des” fica murcha, seca, totalmente esvaziada. Perde-se a evolução e a involução do conceito. O “des” suga com uma cânula todo o teor lírico e religioso da palavra. O “des” é um profeta erege que determina outro poder ao vocábulo, esvazia a história, apaga a identidade, suplanta o carisma, atira o tempo pela janela e se derrama desgraçadamente em praça pública. Porque a desgraça está nas ruas, nas praças, nos guetos e parece irreversível, porque depois de ser desgraça a palavra não consegue retroceder. Segue sua sina mortal, embora eu creia na imortalidade da palavra, sei que ela tem corpo e alma, que é dotada de um espírito que rege o universo e move-se sobre a superfície da terra. Que as palavras modulam na compleição do pensamento e na elevação do espírito. E que se regressarmos às forças primordiais da criação do cosmo, somos capazes de retomar essa força da longevidade da palavra: no início era a palavra e etc. Sabia Deus que os homens iam carregar a palavra com significados? Por supuesto. Daí que ganhou um tempo, transformou a palavra em carne e habitou entre nós. E a palavra se fez Deus. Apesar das experiências pessoalíssimas com as palavras, pouco sabemos dos desígnios de Deus. E é nesse ponto que se rompe o nosso cordão umbilical com o misterioso umbigo do mundo. Essa foi a nossa des-graça. Temos que encontrar outros canais para conexão com o criador. Falando em conexão, deixa eu puxar o fio condutor desta crônica que soltei em “sina mortal” – tenho uma facilidade enorme para fugir do assunto – e completar que a sina da palavra desgraça está muito bem delineada junto à margem do ruidoso abismo da criação, foi o preço pela emancipação humana. E que minha amiga me perdoe as palavras, e o pensamento que vai na frente das palavras, na verdade eu só queria dizer dessa pequena poesia que é a humanidade, dos pequenos adágios que resumem idéias, pensamentos e sensações em nada. Que perdoe também minha maneira quase leviana de falar das coisas sagradas, motivo pelo qual não me aventurei pelos campos da Teologia. Tampouco da filologia.

Lucilene Machado

Lucilene Machado: Visualizar "O CAMINHO SECRETO DAS PALAVRAS"

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

As tartarugas e eu
















Foto: infotortuga.com


As tartarugas e eu

      Um dos passeios que mais gosto de fazer em Madrid é ir à estação de Atocha observar as tartarugas. Algo que me custa dizer, considerando que Madrid tem uma lista infindável de museus, monumentos, exposições, jardins, palácios, arquitetura medieval... e eu, passando horas mortas diante de centenas de tartarugas. Outras questões que colaboram para engrossar a falta de sensatez do hábito é que no meu país posso ver tartaruga quando quiser e deveria aproveitar esse tempo para fazer algo mais cultural, intelectual aproveitável para minha pesquisa, já que não sou bióloga, antes que me perguntem, sou professora de literatura. Também deixo claro que não sou mais uma menina encantada com a fábula da tartaruga e a lebre, cuja óbvia moral nem precisava repetir, mas vou re-acalentar: é não subestimar os lentos. E, sem mais delongas, confesso: a tartaruga é um bicho pelo qual nunca tive nenhum encantamento. Minto, quando pequena meu pai me contava a história de uma festa no céu em que participavam todos os bichos e à tartaruga lhe deram a missão de cantar. A tartaruga era um macho e tinha um vozeirão invejável, cantava tenor. Não sei se trata de uma fábula da tradição oral ou se meu pai a inventou. Meu pai inventava histórias para suprir a falta de livros. Mas cada coisa no seu lugar. Não quero fazer digressões. Nunca toquei o casco de uma tartaruga. Daí que não me parece nada razoável este descer e subir escadas, este ultrapassar corredores compridos, ruídos, vendedores, gente comum e incomum, poluição audiovisual... para enfim chegar ao recanto das tartarugas e respirar. É só isso que faço. Respiro va-ga-ro-sa-men-te olhando para as tartarugas. Elas, sequer, se dão conta. Não sei se elas conseguem ver algo com aqueles olhinhos metidos nas pálpebras grossas. Também não sei se elas ouvem e, para desgraça da criança que vive dentro de mim: elas também não cantam. Não têm, ao que parece, nenhum atributo para divertir as pessoas que se debruçam sobre o parapeito do jardim a admirá-las.
      Isso não quer dizer que elas não tenham qualidades, todos conhecemos seus antecedentes históricos. Já foram animais gigantes, com três metros de comprimento, fato que elas não se lembram. As lembranças das coisas velhas fazem os seres velhos. E as tartarugas não envelhecem, são cada vez mais resistentes ao tempo, capaz de viver quase sem alimentos e difícil de morrer, ou de matar, como queiram. É preciso muito esforço para matar uma tartaruga. Rubem Braga relata em uma crônica a saga de matar uma tartaruga. Cortam-lhe a cabeça e ela continua a bater as nadadeiras. Arrancam-lhe o coração, ele continua a pulsar. A vida está entranhada nos seus tecidos com uma teimosia que inspira respeito e medo. Um pedaço de carne cortado, jogado ao chão, treme sozinho. Sua agonia é horrível e insistente como um pesadelo. Daí que na alma dos algozes surge aquela pobreza envergonhada da velha condição humana. (Mas não se enganem, abro um parêntesis aqui para dizer que os humanos seguem matando tartarugas, inclusive para fazer cosmético).
      Em Atocha, essas criaturas sobreviveram à calamidade de um atentado mortal que calou pessoas de várias partes do mundo. E Sobrevivem, solidárias e tenazmente, a um espaço de superpopulação. Já que além da procriação natural do grupo nativo, pessoas que não sabem o que fazer com suas tartarugas domésticas, as abandonam ali. Desavisadas, as novatas se integram ao velho grupo e ao recanto que pensam ser do tamanho do mundo. Eu desconheço arte tão preciosa quanto a de se integrar e dominar o espaço de sobrevivência. Sobretudo para seres tão tímidos como as tartarugas. Talvez nossa linha de identificação passe por aí, eu também sou tímida, embora de um jeito mais espalhafatoso. Não tenho esse silêncio feroz que penso haver debaixo daqueles cascos. Debaixo da minha casca há uma alma galopando e um torpor animal querendo vomitar palavras que sequer existem nos idiomas. Mas não deixo de me sentir uma tartaruga integrando-se ao velho mundo. Também me esfrego nas areias de um mar desconhecido que me parece fascinante e bebo a vida em goles, com as palmas da mão, para que não termine nunca.
      O cotidiano das tartarugas de Atocha está centrado em um tanque de água parada que faz parte de um jardim de 4000 metros quadrados, intensamente coberto por uma vegetação de folhas largas e estreitas que abusam da beleza dos tons verdes. Aí nadam, tomam sol, rastejam-se sobre uma areia branca posta a cada lado da lagoa e vadiam entre as irregulares pedras escuras que escalam de uma maneira insólita: sobem umas sobre as outras como uma espécie de pirâmide viva até alcançar lugares que julgo, do alto da minha “sabedoria” humana, inóspitos. Observo suas grossas carapaças verdejantes. Umas pequenas, outras enormes, pesadonas, untadas com o mesmo limo viscoso das rochas, a empurrar estações pela vida afora. São várias gerações em uma mesma sintonia. As maiores carregam as menores em suas carapaças inchadas de silêncio, sem lamentações. Estão amalgamadas ao silêncio da eternidade. Às vezes me fixo em uma até que ela atravesse todo o campo do meu olhar e se esconda numa moita verde. Aí nos perdemos. E lá se vai meu raciocínio metafísico. Volto a ser uma representante da ciência da literatura e ela volta a ser um réptil entre tantos. Aparentemente, nada em comum. Retorno a casa com uma sutil sensação de felicidade como se a vida se resumisse nessas pequenas tentações de eternizar-se em qualquer parte do mundo. A propósito, ando devagar para justificar a moral desta fábula/crônica.

Lucilene Machado 

quarta-feira, 23 de junho de 2010

REFLEXÕES SOBRE O DIA E O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

O amor é a última fronteira, talvez a única. O amor é uma edificação abstrata encoberta pela soleira de algum navio que ousa estar muito longe dos calendários, num lugar onde não há noites e o dia entra pela sacada chegando ao fundo da alma. O amor é a maior celebração em que se come a comida devagar, degustando sem pressa, como se digeri a vida, ciente de que um dia será por ela digerido.
Enchi a boca de alface e fui me deixando pastorear a alma. Saramago morreu. Saramago is dead. A língua portuguesa enviuvou-se de seu mais fiel porta-voz. A morte é a mais fria monstruosidade. Não quero morrer nunca. Tampouco quero comer um prato único. Não quero o céu da boca condicionado a um mesmo sabor. A vida é cheia de imortalidades. Creio na imortalidade das palavras. Palavras musicadas, retumbadas, esculpidas, palavras repetidas milhões de vezes. Todas as palavras que dissemos, desde o principio do universo estão por aí, dando voltas, sustentadas pelo magna do universo. Eternidade é isso. No principio foi a palavra, no final, segue a palavra. As palavras dos mortos penetram nossa cabeça formando redemoinhos. O grito dos portugueses ao avistar a terra brasilis pela primeira vez. O grito de independência ou ainda mais distante as palavras que crucificaram Cristo. As palavras de Sócrates, Aristóteles... mesmo que não recordo suas significantes, os significados passam por mim como uma lâmina. De maneira similar, passam por mim as palavras de meus avós a me acariciar a face. Uma brisa ligeira que me conforta e me faz reviver cenas de uma infância preservada pela imagem e pela palavra. Saramago transformou-se em palavras que serão disseminadas por muitas outras gerações. Nascerão no espírito e na alma de cada novo ser com a naturalidade dos lírios no campo. A semeadura foi feita com a coesão de um homem que pensou a partir da consciência da palavra-viva. Pensou por meio do coração do povo. E se agora nos deixa, sua palavra nos agarra. Estarão albergadas nos porões de nossas almas para sempre.
Daí que celebro. Não a morte, mas a herança que nos foi legada. Uma herança que só tem pátria em ilhas férteis, porque as sementes criam e se recriam, para que ninguém pereça de fome e o alimento seja preservado para além das intempéries e estações. Quem sabe um dia, na terra, se compreenderá algo como o amor. Intentar-se-á descobrir onde ele se esconde ou se concentra. O amor não desespera, não se exaspera e se agora me calo é porque estou inadvertidamente viva no dia e no ano da morte de José Saramago.
Lucilene Machado

domingo, 7 de março de 2010

O encontro

          O moço chegou assim, sem conhecer ninguém. Era quarta feira ou sexta feira? Sei que era dia de percorrer longas distâncias dentro de mim. Não havia nenhuma festa. Ou havia? Talvez a festa acontecesse entre nós dois, mas não percebemos, por uma única razão: somos míopes! Ele, com miopia nos olhos. Eu, na alma. Neste caso, brindamos com palavras, o que não podíamos reconhecer.
O cenário era rústico, as superfícies refletiam o desgaste que o tempo inflige às coisas. A atmosfera amiúde e patética era cercada por objetos sem atrativos, insignificantes diante do encontro de duas pessoas desconhecidas, mas que mesmo assim tornam-se pontos fixos de observações e até comentários, porque nesses momentos as coisas internas e externas se misturam e se transformam, indubitavelmente, num elemento poético.
          Assim, agregamos palavras. Talvez excedentes. Talvez prematuras. Mas todas perdoáveis. Quem é capaz de traçar, antecipadamente, um caminho por onde percorrerão as palavras? Palavras são mariposas que sobrevoam o mapa eletrizante dos nossos sonhos, buscando sinais magnéticos para uma completa atração. Entretanto, nem sempre isso acontece. Às vezes as mariposas fecham as asas e caem vencidas sobre o chão da realidade. Dá-se aí uma inapetência diante das palavras grafadas, inutilmente, para serem deletadas devida a corrosão sofrida pelo pensamento inadvertido.
          O moço não tinha palavras rudes. Suas frases alcançavam a doce superfície dos instrumentos afinados, tinham a suavidade de madeira manejada e uma consistência de tato, como se a voz fosse algo palpável. Porém esses fatores não são imprescindíveis ao esquecimento, razão pela qual coloco palavras no papel para que o perfeito estado dos vocábulos não seja destruído e possa ser preservado no núcleo de sua estrutura. Porque o moço, bem, o moço já se foi. Discretamente, como chegou. Levou as idéias, os projetos, as atitudes, os prazeres... já seria a hora de envilecermos?
          Ele tinha que ir. E eu fiquei ali olhando para as costas do moço e pensando como teria sido se ele ficasse, se seria bom, se ele escrevia bem... se eu iria molhar os olhos lendo textos pela madrugada... fiquei ali olhando para o moço e ele indo embora... E eu nem fiquei sabendo se ele lia Pablo Neruda, se gostava de Fernando Pessoa.... se já havia chorado alguma vez, se tinha algum sinal de infância... por que aquele cuidado excessivo em apagar as pegadas, em não deixar pistas? Por que a precaução em se manter desconhecido?
          Então, fiquei aqui pensando nas coisas que a gente perde, sem saber o que está perdendo. E, o que fica dessas pequenas conspirações do destino além da dolorida hora de olhar alguém partindo? Talvez a poesia. E como disse Neruda: “...na casa da poesia nada permanece a não ser o que foi escrito com sangue para ser ouvido pelo sangue.”

Lucilene Machado

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Seguindo os sinais

SEGUINDO OS SINAIS

Você entra na cidade e recorda que a primeira vez que ali estivera, fora por uma paixão. Paixão esquecida na página de algum diário que você, com louca ternura, escreveu. A memória das palavras engoliu todas as emoções, angústias, frustrações ou qualquer mágoa remanescente de um romance acabado. Mas semelhante à memória de uma máquina, restara algum terminal que, ligado a um banco de dados, restituía informações já recobertas por acontecimentos recentes. Uma saudade volta a inundar-lhe o ser numa esplendorosa manhã de sol tão linda como aquela em que se conheceram. Você volta a sentir o aroma dos pães e dos cafés que resguardam uma felicidade suavemente doméstica. Cresce uma detestável nostalgia e você constata, com certa resistência da memória, que a data atual é a mesma do dia em que se conheceram. Seria uma simples coincidência? Mais que isso, você se dá conta que está na mesma rua onde jantaram pela primeira vez e assistiram a um concerto de jazz. Você fica aterrada por uma dúvida: seriam sinais? Ora, nada acontece por acaso e milhares de coisas são movidas no eixo do universo para que coincidências ocorram. Mas você corta bruscamente a hemorragia de sugestões que teima em inundar seu cérebro, fecha os olhos e encosta-se na poltrona do ônibus. Por sua própria segurança (ou insegurança) não iria dar vazão a essas enxurradas de idéias supersticiosas. Definitivamente não acreditava em sinais. Mas, e se esses toques divinos existissem? Pressentimentos? Intuições? Será que aquele homem de olhar caprichoso guardava as lembranças do passado? Provavelmente diria que sim. O que ha-via de verdadeiro nele era essa falsidade com que conduzia as relações. Uma excessiva adaptação a situações adversas, a convenções de sentimentos, ao uso de expressões por demais lisonjas que a agradava. Mas na verdade, há muito ele havia se esvaziado da substância amorosa embora carregasse uma fragilidade não muito comum aos homens. Estratégia para atrair as mulheres? Era uma imagem máscula pendurada sobre um fundo de desamparo. Contradições que lhe davam um charme peculiar. Falava de si como se inventasse uma história de fadas. E você lutou para não ser parte da ficção, de pouco valeu, acabou enredada pela tessitura das construções literárias. Você o amou na arte e na vida. Chorou uma semana. Chorou no banho. Chorou ao secar-se com a toalha. Chorou ao se olhar no espelho, nua. Chorou nua. Mas depois descobriu novas paixões, novas possibilidades, novos mundos... Agora estava ali, com uma câmera de turista a captar imagens para seu álbum, mas o que via eram partículas  esquecidas pedacinhos de cristais imperceptíveis às lentes da máquina. Toma o metrô com a alma sufocada de azul. Desce numa estação qualquer para respirar e depara-se com um mural imenso onde tudo acontece simultaneamente. As naus dos conquistadores, a inquisição, cavaleiros com bandeiras ensangüentadas e um Cristo de olhar penetrante a desvendar os seus secretos desejos. Sua viagem é aquele afresco múltiplo. Não há clareza. Está sendo guiada pelo instinto que desvia o curso de seu destino. Há um traçado superior determinando seus passos. Há uma leve suspeita de que qualquer caminho que tomar encontrará, ao final, aquele homem, mas você resiste cooperar com o destino. Entra num bar para um café e constata que o garçom tem o nome igual ao dele, não há dúvidas de que um ar de magia envolve toda a situação. Era necessário estar atenta. Ele poderia surgir a qualquer momento. Melhor usar um corretivo nos olhos, um batom na boca e espiar, discretamente, nos lugares possíveis e nos impossíveis. Mas a noite chega e nada. Você volta ao hotel e entre um telefonema e outro vê o número dele exposto em sua agenda. Passa horas imaginando encontrá-lo num acaso. No fundo, você sempre acreditou que, algum dia, o destino voltaria a unilos. Mas talvez fosse necessário cooperar. Decide ligar. É preciso arriscar, decifrar os códigos, fazer a parte que lhe cabe. Não é assim que discursam os místicos? Pega o telefone e sente um frio no estômago. Era já meia-noite... mas que importa? Fora à meia-noite que trocaram o primeiro beijo. Era uma hora mágica e nada poderia ser forte o bastante para contrariar toda aquela energia. Disca o número, já quase arrependida. Um medo de gaguejar, de perder a voz, de não saber o que dizer... cada toque é uma eternidade. Um desejo. Uma esperança. No quarto toque, uma voz feminina atende. Você, assustada, pergunta por ele. A voz responde que ele está no banho. Você silencia. A voz pergunta se você quer esperar, deixar recado, chamar no outro dia... Você desliga imediatamente e depois de organizar os pensamentos, sente uma ponta de dor. Por certo essa voz femi- nina seja um sinal claro e evidente de que você não entende nada de sinais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

BIOGRAFIA DE AMORES (texto IX)

Texto IX

          Desculpe JB, se abro o coração em praça pública. Quando me apaixono, o nível de burrice se eleva enormemente e a inteligência se fragmenta em milhares de partículas. Claro que eu nunca fui dotada de uma inteligência privilegiada, meu pensamento nunca ultrapassou as teorias já existentes, tampouco eu soube fazer uso delas nas horas devidas. Escrevo porque sou refém das palavras, preciso delas para unir os destroços de inteligência, fragmentados em letras díspares, que extrapolam as margens do meu entendimento. Escrevo para saber o que penso e o que sinto. Escrevo sobre a metade das coisas, a metade que me pertence, a metade que entendo. A outra metade talvez seja a que me explique, mas não forço a vida. Sou condescendente com o improvável. Difícil compreender? Para os carentes de fantasia esse relato é inútil. O que vou escrever, nada mais é que um recorte da realidade atravessado pelo sonho. A arte de fantasiar é a mesma para produzir milagres ou ciladas, é a mesma que veste as palavras de emoção para serem vendidas em páginas de livros. Às vezes são vendidas em tendas, aos quilos, pesadas em balanças, a preços módicos. Frases sofisticadas ou rústicas que atam como cordas até aos mais avisados. Aprendi cedo que seria difícil lidar com isso. Comecei com certa precaução. Media as palavras palmo a palmo para ver até onde elas poderiam chegar. Minhas mãos engrossaram pelo trabalho de lapidação. Espichava os vocábulos, puxava as tardes pelas beiras, moldava os sons com o fim de criar laços sinestésicos que fossem indissolúveis. Aprendi a diferenciar estruturas, a separar palavras pelo tato, a ousar nas envergaduras, mas nada foi bastante para me proteger, para me poupar dessa engenhosa armadilha inerente à realidade.
          Não sei se existe explicação lógica para justificar os atos sentimentais, mas eu sabia, eu juro que sabia que os arcos daquele sonho iriam ruir. Eu sonhava e falava, e a palavra ia ficando maior do que o sonho. E o sonho ia entrando na palavra, e a palavra ia roubando o sonho... Fiquei cativa da palavra impiedosa e do seu tom racional.
          Eu sempre soube, JB, que o meu amor era maior que o seu, e isso já era uma dor antecipada. A memória do futuro me oprimia. Cada vez que você me abraçava, ofegantemente eu respirava uma certeza, você não era meu. Cada vez que nos amávamos, mesmo com toda sincronia de corpos, a sensação de distância era abissal. Sua cautela para que a sensibilidade não fosse dominada pela inteligência, me atingia como uma faca cega diretamente no coração. Sua paixão por Kant me causava ódio. Kant nunca conheceu o amor. E você queria ser ele. Eu também quis ser ele por várias vezes. Quis ser aquele livro velho de folhas amareladas cujas palavras construíam os seus argumentos. Faria qualquer coisa para garantir a sua admiração enquanto você me impunha um silêncio devastador. Um silêncio severo, teórico. Por certo, queria me enfraquecer para que eu não sofresse tanto a dor da morte. Mas não há paliativos para a morte, nem para os simulacros da morte. O amor já havia engolido tudo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

TERNURAS ESCULPIDAS


TERNURAS ESCULPIDAS

Continuo a não compreender as palavras. Continuo sem saber o sentido que dou para esta ou aquela verdade. Há tantas verdades enroscadas no meu cérebro! Ainda me impressiono, por exemplo, com os sorrisos. Mesmo quando não são dirigidos a mim. Há um desses pendurado no meu pensamento. Um sorriso branco que me humilha. Alguma coisa me é despertada por dentro e me faz sentir tão pequena, quase nada. Mulher sexo frágil. Seria isso? O espírito resiste dentro de um vaso fraco. Resistir a quê? À sedução de um sorriso alheio? Sentir é a forma mais irracional do saber. Torna-se intrigante explicar. O coração fica de um jeito esquisito. Parece uma flor se abrindo e tendo de se fechar imediatamente. Uma quase dor. Uma martelada no cérebro: “você está cobiçando o sorriso do próximo!” Tentação deve ser isso. Você é tentada a continuar olhando enquanto trabalha a matéria bruta do seu pensamento, ou, matéria bruta do seu corpo. O corpo informa mais que o cérebro. E você olha, olha... e ainda leva a imagem retratada no olhar. Depois fica analisando a geografia do sorriso: comprimento, largura, relevo, umidade... e começa a traçar mapas.
          Carrego tantos mapas de sorrisos. Longitudes impressionantes! Escondo todos. É como se fosse uma violação à lei natural. Não se pode teorizar um sorriso. Sinto-me a própria rainha de Sabá. Utopia? Detesto esta palavra. Quero dizer, detesto o significado dela. É quase irmã da angústia. Guarda medo e desafio. Uma palavra muda. Não pode ser dita de qualquer modo, necessita certa fundamentação. O que vem contrariar os meus princípios estruturais. Escolho minhas palavras à revelia. Saio pelo mundo catando obsessões, colecionando sorrisos, respirando a beleza do que está fora de mim.
          Na verdade, eu nunca quis ser uma intelectual. Sou comprometida com a ternura. É a maneira mais fácil de ser feliz. Vi na vitrine de uma loja de brinquedos um robô-soldado com movimentos carinhosos e ternos. As lágrimas quase saltaram dos meus olhos. Por instantes, não consegui qualquer raciocínio. Sensibilidade afetiva humana. Pense o que quiser. A ternura pode não ser humana. Pode não ser um sentimento, uma emoção... a ternura pode ser apenas um impulso. Um impulso capaz de nos deixar estáticos. Ou, poderia dizer que, a ternura é um soldado invencível. Seria esta a lição do artista? De que adianta transformarmo-nos em verdadeiros robôs se só a ternura poderá vencer os conflitos?
          De súbito comecei a me perguntar o que pode ter passado pela mente do autor durante a concepção da obra. Por certo, fartura e carência; requinte e rudeza; guerra e paz; intuição e ciência; tradição e pós-moderno... Quantas antíteses! Por outro lado, os movimentos ternos do robô podem ser conseqüências de alguma falha do mecanismo robótico. Mas não gostei dessa hipótese. Um pensamento fácil e realista. Olhei novamente, de esguelha, para o boneco. Se o artista não é um gênio, a obra é um milagre. Há uma magia qualquer que aciona um ponto dentro da gente. Um ponto de felicidade. Como a vida é secreta, meu Deus! Minha missão neste mundo é apenas viver. Compreender é pretensão. E o tempo é pequeno para que um dia eu venha a aprender algo mais concreto acerca de bonecos e robôs.



cena do filme Jornada da Alma (The Soul Keeper, 2002)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

SECUENCIA DE SUEÑOS





SECUENCIA DE SUEÑOS

           
Por hoy, yo necesitaba solamente una botella de vino para embriagarme. Espíritu dionisiaco a beber un sueño. Pero el cáliz de la realidad no me permite ganar la eternidad del cielo de una boca o cualquier otro paraíso hecho de suspiros y  palabras. La razón no entiende la emoción. Los enfrentamientos y las estafas. Enamorase merece la pena por el silencio que engloba, por  lo que no podemos decir, por lo que no podemos preguntar, porque muchas veces las preguntas no son posibles.
            Me inclino a lo largo de la barandilla de una ventana que no me pertenece. Nada me pertenece. Pocas personas en el mundo son tan desnudadas como yo. Tengo una desnudez que me duele. Una desnudez que quiere ser dividida. Es sublime donar un pedazo de si. Una mutilación que edifica  sueños. ¿Cuántos sueños son necesarios para desentrañar el misterio de un hombre? Tal vez ninguno. Es posible se desintegrar los átomos de un hombre con actitudes. Con algún impulso de la sangre latina se puede disfrutar preciosos descubrimientos. Pero el amor es otra cosa. El amor es el nombre que busco y para el cual  me encontré derrotado un par de veces. Fue infeliz en todas las felicidades. Mi alma es una capilla vacía esperando por un ángel. Un ángel lleno de pecados a hacerme confesiones.
            La luna arrastra el futuro por caminos inexplorados. Quiero estar viva lo suficiente para viajar con mis ilusiones por estos designios. Ya no estaré confinada a un rincón del mundo con esta sobrecarga de imágenes. Ya no necesitaré pensar, no necesitaré concentrarme en los amarres del texto que tiene cuerpo de crónica. Eso extiende mi angustia. Yo quería pensar sin formas, pero no puedo. Todo acaba formalizado. El miedo de la decepción, el miedo de no tener miedo... Cada palabra tiene su precio. Soy víctima de un sistema colectivo de conexión de ideas. Incluso el amor tiene su propia terminología. Incluso el amor tiene su ciencia. Pero hoy estoy incurable. Quiero un amor de bar. Un amor sin prisa y sin causa. Es porque lo es, porque tiene que ser. Un amor sin historia, sucediendo al acaso, como si yo nunca hubiera soñado nada de esa naturaleza.
            En realidad, cuando se vive a miles de noches, ya no se puede saber en cual noche antigua, muy antigua, se plantó el sueño. Debe ser cuando afeité las piernas por la primera vez, usé tacones y todo el mundo se dio cuenta: "esta niña creció, está se haciendo mujer." Se completó un ciclo. Nunca volví de nuevo al ático para jugar con muñecas. Sí, volví sí, para a ver de las alturas el destino que se levantó de la tierra. El destino tenía cuerpo y olor de hombre. Me sentí avergonzada de mis sentimientos sin vergüenza. Avergonzada de mis pensamientos audaces. Mi cuerpo era un mar con necesidad de muchos ríos para satisfacerlo. ¿Era así con todas las chicas? La pubertad, he escuchado en la clase de ciencias. Sólo no hablaran de la necesidad de la simbiosis del espíritu. Pero, instintivamente comencé a buscar el verdadero amor. Raras veces lo viví por entero. Yo quería lograr con la mano lo que está a la altura de la inteligencia.
            Esta memoria afectiva me hace cansada! Yo podría decir que hoy estoy lista para el desafío, pero el amor tiene rasgo desconocido para mí. No puedo hablar de la anatomía. Tanta belleza en una. Tanto pecado en el mismo pecado. La redención, el perdón... Eros, ágape, filia... gravitar alrededor del otro... mejor bucear en un vaso de vino y lamer la emoción altruista (o es egoísta?) de haber escrito esta página.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Comentários do meu amigo-leitor João Ferreira, que escreve lindamente.





             Lucilene

          Gosto imenso de ler tuas crônicas. Ao lê-las sinto a bruxaria tecelã enredando, sublimando, engrandecendo, elevando. Dá-me a impressão de te ver sentada num tear matricial onde controlas os fios com que vais tecendo a narração. Um fio daqui, outro dali. As pontas rapidamente se transformam em sujeitos e personagens. Em pouco tempo a linguagem é toda movimento. Ao leme há sempre um sujeito-autor comandando o sujeito- narrador que é sempre a mulher. Mulher que é arquétipo, gênero, indivíduo, ente ficcional, ente real, ente desenhado, mulher eterna e mulher... até biodegradável... Tudo o mais que sai deste tear matricial e mulherial é fio para tecer imagens, personagens móveis, possíveis, personagens decaídas, decadentes, personagens divinas, elevadas, personagens de desejo e personagens de vida real. A crônica plástica usa tintas variadas e exige talento para pintar quadros destes. A Lucilene Machado ora é tecelã, ora pintora, ora mulher, mas nunca deixa de ser escritora. Eu leio suas crônicas, Lucilene, e devo reconhecer que fico enleado com a plasticidade literária de seus textos. Você sabe costurar. Costurar palavras não é fácil. Fazer literatura é conseguir a transição da palavra comum e pesada do dicionário para o nível literário, metafórico e ágil da linguagem. É uma tarefa que exige talento. A Lucilene tem este talento. Por isso fala até da mulher biodegradável. Em seu texto, as palavras se atrelam, se erguem, se definem, se acoplam, fazem sentidos, arrastam, criam relações com arquétipos e sentidos como se fosse a própria linguagem semiótica. Em sua prosa há sempre um sujeito, que é a mulher. Todo o resto são fragrâncias, são rendas, são pinturas, arquiteturas, músicas. A mulher irradia e à volta dela criam-se cintilações, iluminações. Há bailes e festas, há movimento. A mulher os conduz. Há amores: a mulher os tece. Há ódios ou suspeitas: a mulher os contorna. Literatura é isto. Imaginação criadora.






Beijos. João Ferreira

sábado, 9 de janeiro de 2010

MULHERES BIODEGRADÁVEIS










          Eu pertenço a uma geração de mulheres biodegradáveis (ou biodesagradáveis?), que se espalham, se dissolvem e desaparecem sem deixar menores partículas. Mulheres que habitam um mapa superaquecido e se decompõem facilmente por não oferecerem resistência. Seus cadáveres são expostos em praça pública e seus microorganismos avaliados cientificamente. Arrancam pecados de seus estômagos, ironia de seus rins, enquanto suas almas atravessam paredes e janelas. Faço parte dessa classe de mulheres que apagam suas histórias para não poluir a natureza e suplantam a vingança para não destruir o planeta com uma exacerbada energia negativa. Mulheres que inventam rios e chuvas. Cruzam a água e chegam molhadas na hora em que os débeis não estão preparados para recebê-las. 

          Sou dessas mulheres etéreas, quase voláteis. Costumo escapar por entre os dedos da eternidade enquanto a vida respira cotidianamente em ritmos de procissão. Mulher que se inventa em destinos gozosos, impossíveis, fazendo-se terna e selvagem. Procura homens que disputem sua inteligência, entretanto os homens estão ocupados em suas infinitas memórias sexuais e seus sonhos freudianos. Presos em suas falsas muralhas, cobertas de ciprestes que espinham, mas são vulneráveis ao opor resistências. 
          Foi por esse ponto frágil que adentrei várias vezes ao mundo masculino, dissolvendo-me em todas as tentativas. Com Ed também foi assim. Ele tinha a essência do vento oceânico em sua respiração. No início achei que não devia. Suas mãos manejavam sonhos jurássicos e seus olhos liam livros cujas letras caíam de suas folhas. E eu, carregada com essa consciência ecológica, habituada a ser poema sem livro, pensamento sem recordações, roteiro de personagens ímpares sem cheiro e sem rastros, fui contornando a situação. 
          Ele era quase feliz, embora estivesse abandonado, embora estivesse intoxicado com seus próprios pensamentos. Como assinalou Joyce, estava feliz, perto do coração selvagem da vida. Não buscava amores, mas não relutou mediante minhas tentativas que poderiam levá-lo a algum paraíso esquecido, ou ao nada. 
          O mundo da palavra é uma possibilidade infinita de aventura. Foi por aqui que iniciamos. Percorremos a cidade por cima, como duas gaivotas perdidas em terra estranha. O fio condutor me pertencia por condição literária, mas nunca deixei de ouvi-lo. Pescado vivo dentro de sua realidade, era um personagem real caminhando por vias oblíquas, bem próximas das relações verdadeiras e consolidadas que podem dormir ao som do mar ou à luz do sol, ao meio dia. Nos perdemos nos bosques distantes só para ter a surpresa de nos reencontrarmos. Dias e noites de intensa paixão. Mas logo veio o impacto do instante agudo, sem nada dentro. Um silêncio que me traía, que me expunha, que queria estar comigo. No destino das mulheres há sempre um absurdo. Às vezes a vida toda é um absurdo. Ed não suportou o meu silêncio. Tomou decisões dramáticas, sérias e descabidas. Aparentou ferocidade ao precipitar o curso das coisas, tentou salvar uma de minhas partículas, minha primeira célula, como se isso fosse possível. Nada. Do todo, restou minha presença espectral e o estranho bater de um coração desconhecido que pertence ao narrador (ou narradora?) que é pessoa lá de fora, obrigada a ser neutra, a ser comum, a ser normal ainda que só se revele aos sensíveis e loucos. Devo acrescentar ainda que este é um conto de ficção, qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência, principalmente se for com a sua, Ed.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

BIOGRAFIA DE AMORES (texto XI)








BIOGRAFIA DE AMORES
Texto XI


          Desci do trem pensando em como seria a vida depois dele. Arrastei a mala, muito mais pesada que antes, sobre a superfície íngreme do meu destino. Segui devagar, não queria que o ranger das rodas denunciasse qualquer som mórbido. As marcas de tristeza não devem aparecer para não infectar os que merecem estar felizes a nossa volta. Chutei uma pedra imaginária como uma forma de desabafo, como uma forma de dizer “ó vida, e agora?” O frio me agarrava pelas costas golpeando os meus ossos. Lembrei-me dos dias anteriores. Lembrei-me da sala entulhada de imagens, da lareira e do fogo a nos vigiar. Éramos dois. Quase um. Nossas poucas palavras jaziam entre cinzas e chamas, e o frio com seu vulto surdo-mudo nos fazia sombra. Vez por outra ele atiçava as labaredas com as mãos desnudas. Um gesto que me excitava. Sua língua sorvia o calor ardente da lenha para me aquecer os seios. Nossos corpos eram nossas almas. Nossos sonhos e peles se misturavam. Toques e aconchegos. Víamos por dentro. Viver, amar e ser amado. A vida passa por essa gradação e eu obedeço. Nunca me disseram que eu deveria ser amada para amar. Aprendi só a me envolver com a paixão, muito mais que com a história. Daí que a paixão acontece fora do script, aquém de seu tempo determinado e me deixa com o espírito cheio de interjeições, mas não maldigo os desacertos. Gosto de perambular, sem defesa, pela rota do imprevisível. Algo não aconselhável, só ouso porque sou capaz de suportar as agruras posteriores.
          A casa dista cinco quadras da estação. Arrasto a mala como quem arrasta um planeta. Vários faróis se alternando em verde e vermelho como se alternassem também as interjeições: “siga! Olhe! Cuidado! Aproveite! há esperança, há amor... fuja! Nenhum médico poderá salvá-la! Você será afogada no rio do tempo sem nenhuma gota d’água, etc., etc.”
          A sensação causou-me vertigem. Meus olhos resvalavam nas paredes antigas dos prédios. As ruas estavam molhadas e me pareciam perturbadoras àquela hora da noite. Tudo parece perturbador ou fabuloso quando o coração está inquieto. A cidade me olhava como um homem olha uma mulher e ia soltando seus ruídos. Sibilinos como o som do vento nos vitrais, durante as noites de insônia. Senti-me forte cidadã dessa selva de pedra cada vez mais gélida. Oh Deus, também eu? Creio na imortalidade da palavra. A palavra dentro de sua esfera. No princípio era o verbo e o verbo era Deus. Mas para o amor não há manuais. Algumas palavras já foram vendidas como pão e peixe. Fortalecem, ajudam a resistir. O amor jamais me esgota quando vivido em palavras, mas os abraços me arrancam o delírio, me arrancam as ilusões. O corpo fica dolorido quando a palavra voa. Recordo-me de tantas coisas que volto a ter medo.
          Desci a rua pensando nisso. Atravessei o parque, um cão saltou à minha frente, louco com o frio que lhe atravessava a carne. O focinho pontiagudo parecia aspirar o melhor do mundo, como se o melhor do mundo estivesse à altura de seu nariz. Os cachorros não têm antecedentes históricos, não sabem que Homero não existe mais e que a civilização, que se deu a duras penas, parece estar regredindo. Somos outra vez bárbaros. E o estado, como vociferou um antigo filósofo, é o mais frio dos monstros. Não sou ingênua para contrariar essa opinião. Não discuto, acompanho os acontecimentos. Eu e o cão não temos futuro amoroso, mas estamos neste texto a contemplar essa coisa nenhuma que é a cidade vazia de sentimentos.