sábado, 4 de dezembro de 2010

Almodóvar, Che Guevara e as bonecas russas






Almodóvar, Che Guevara e as bonecas russas

          Quando cheguei a Madrid pensei que encontraria uma população muito parecida com os personagens de Almodóvar. Passaram-se um, dois, três meses e o que encontrei foram mulheres elegantes, vestindo Dior, homens discretíssimos em seus ternos de El corte ingles, e uma harmonia de cores que nem de longe lembra os filmes do espanhol. Nada de mulheres com flores no cabelo, nada de beijos marcados e estalados, nada de cores chocantes, nada de personagens exagerados... e quando eu já estava quase convencida de que o mundo de Almodóvar só existe na ficção, eis que tomo um taxi onde me senti em uma película do cineasta. Não chegava a ser um taxi como de Mulheres à beira de um ataque de nervos, mas o conteúdo tão impressionante quanto. Aliás, “conteúdo” foi uma das primeiras palavras pronunciadas pelo condutor, quando eu quis fazer referência à originalidade do carro, na verdade, ao que estava dentro do carro. “Há uma diferença entre continente e conteúdo”, falou com a mesma imponência em que são ditas as grandes verdades. Eu odeio as verdades absolutas, de modo que armei minha tenda de defesa dentro daquele continente cinematográfico, cuja viagem interior poderia ser mais intensa que a proporcionada pela calle de Alcalá, uma das ruas mais extensas de Madrid.
          Começo pelas frases em neon, capas coloridas nos bancos, um babado com brilho a laser no câmbio, revistas, balas, bailarinas penduradas, espelhos, porta-copos, porta-flores e um objeto que chamou muitíssimo a minha atenção: uma boneca russa de Che Guevara.
          Eu já fui apaixonada por bonecas russas. Na verdade, ainda sou. Vez por outra, compro uma. Mas quando eu era criança lá em Terra Rica, isso era um sonho impossível. Não havia bonecas russas brasileiras e, sobretudo, tínhamos uma vida muito apertada para comprar uma boneca importada. Uma prima que morava no Rio, cuja família era muito mais desafogada que a nossa, tinha uma boneca russa. Era algo que me enlouquecia. O fato de abrir uma boneca e encontrar outra boneca idêntica em tamanho menor e depois outra e depois outra... até uma bem pequenina do tamanho de um dedal, me encantava. Ficava imaginando os seres humanos assim. Dentro de cada mãe havia outras mães idênticas em tamanhos menores... a mim mesma me imaginei com outras tantas para dentro até chegar ao mais profundo de mim. Mas boneca russa de Che Guevara, eu jamais havia visto, sequer imaginado. Dentro daquele Che de roupa escura e boinas negras, haveria outros guevarazinhos de vários tamanhos até chegar ao núcleo da representação guevariana. Confesso que tive vontade de abrir, e colocá-los todos lado a lado, para não me esquecer de que tudo é representação, estética, ou como diz o taxista, continente. Ou talvez, a vontade de abrir seja fruto de uma esperança boba de que no final eu possa encontrar algo diferente, algo que não seja uma pequena representação oca, alguma idéia iluminada. Entretanto as bonecas são seu próprio continente, sem nenhum conteúdo.
          A realidade também é assim. Feita de formas e simulacros. Aos poucos vamos aprendendo a conviver com todo tipo de representações, contornos, similitudes... Com pessoas ocas que têm como conteúdo mais eficaz, a própria imagem. Os humanos também são simulacros de si mesmos, estão vazios, e tenho de concordar com o taxista que, a esta altura, se aproveita da minha introspecção para costurar o trânsito numa velocidade de corrida automobilística: “Senhor, pode ir devagar que não tenho pressa”. Ele olha para trás por um tempo maior do que deveria e responde que já estamos chegando. “Eu disse o contrário”, tento gritar, e ele volta a olhar para trás enquanto o carro segue desenfreadamente. “Senhor, eu tenho medo”. Mas ele não pára de falar, fazer gestos e resmungar palavrões para aqueles que resolveram cruzar a rua justamente no momento em que seu automóvel tem que passar. Seguro as alças desde o assento traseiro e fico com a mesma expressão estática do Che que me olha do além. Por minha cabeça passa um pensamento peregrino de que se sofrêssemos um acidente e os nossos corpos se partissem, seriam encontrados, junto aos bonecos de Che, dezenas de bonecos dentro de outros bonecos, tristemente vazios, mas com as cores e a estética dignas de um Almodóvar.


Lucilene Machado

4 comentários:

  1. Quantas bonecas há dentro de cada um de nós? Ocas ou não...certamente, elas estão dentro de nós!

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  2. O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.

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  3. AMEI O SEU TEXTO! Encontrei-o por acaso, pesquisando vagamente na internet sobre bonecas russas... Obrigada por compartilhar essa experiência em Madri! O relato é simplesmente adorável.

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    1. Eu que agradeço, Bárbara, sua delicada leitura. Abraços.

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Comentários