terça-feira, 25 de agosto de 2009

Amigoterapia (Para o Fabrício)







Lora, Fabrício, eu e Maísa.
Um amigo alertou-me de que temos um excesso de emoções entranhadas nos músculos. A princípio pensei se tratar de uma metáfora, dessas que a gente diz com a vaga certeza de justificar a vida. Mas meu amigo não é poeta, tampouco filósofo. Acende um cigarro e olha pra cima, a cabeça povoada de perguntas sem respostas. Diz que vai para Hungria e depois me desenha em palavras aquilo que escapa ao pensamento. Na verdade ele tem uma emoção que brota de dentro e quase o consome. Eu só não sabia que podiam estar amalgamadas aos músculos... Custa-me imaginar os músculos como lugar eleito para se guardar emoções. Guardar não, incrustar, porque acabam ressequidas, transformadas em fósseis de si mesmas. Daí, a dificuldade para se livrar delas. Bem, vou morrer com essa incompreensão, mas pelo menos suponho saber porque dói meu corpo quando chega o inverno. Uma abstração se materializa na carne e com o frio, dói. Há muita coisa no mundo que me escapa. A natureza tem tantos enigmas. Nem mesmo uma dissecação do corpo poderia revelar os fenômenos da complexidade humana. Na verdade, nem sei se este “eu” que aqui escreve existe de fato ou é apenas um conceito estético e falso que criei para me entregar aos sonhos sem a obrigação de torná-los nítidos e deixar-me seguir pelas cadências das sensações. Mas e se for o contrário? É possível que a única coisa concreta em mim seja esse “eu” que escreve. As frases literárias têm uma individualidade absolutamente humana, ganham alma, força e visibilidade. Daí que me habituei a sentir o falso como verdadeiro, o descrito como o algo que vi, e assim por diante. Perde-se a distinção humana do real e do irreal. Mas essas estratégias não são comuns apenas a quem escreve. Quem pinta, canta, poda árvores... todos aprendem desde cedo a negar a realidade e tomar por real as coisas que não são. As meninas, por exemplo, sabem que a boneca não é real, mas a trata como real, baseadas numa visão verdade das coisas. Bendita intuição infantil que permite à criança gerenciar o pequeno universo que criou sem levar em conta as convenções criadas pelos adultos. É na infância que aprendemos a manipular os dados reais e os não-reais até confundirmos o que somos com o que não somos. Depois disso, nossa postura será o reflexo da nossa interpretação da vida. Apesar das peculiaridades, somos todos muito parecidos. Cheios de sonhos, cheios de truques. Amamos a fantasia. Idealizamos o outro, fazemos dele o ornamento da nossa emoção e a colocamos onde queremos. Quero dizer, na ânsia de viver, na sede de gozar, acabamos vítimas de nossas próprias circunstâncias. É mesmo assim? Eu teria de fazer algumas aulas sobre psicanálise para escrever esta crônica. E o inverno anda ameaçando as noites longas. Sabemos que irá doer. Eu e o meu amigo. As emoções irão salientar a geografia do corpo por baixo da pele e chegará ao umbigo da nossa orfandade. Ouviremos que a angústia é um constructo do homem, que a solidão é um constructo do homem, desse homem artefato submetido a um sujeito também artefato cheio de angústias e rancores entranhados nos músculos. Temos culpa de termos nascido num tempo apocalíptico e visceral? Um tempo que desconstrói nosso longo parênteses de ilusão e nos coloca sobre uma linha sísmica onde vida e morte se confundem, exterior e interior se irmanam gerando essa insegurança e essa intensidade emocional de que tudo está por um fio. E não há nada a fazer, a não ser lembrarmos de que somos apenas fiapos visitados por esses mistérios que vez por outra iluminam nossas idéias despedaçadas. E, enquanto meu amigo fuma para afugentar os pensamentos, escrevo pra não ver dilaceradas as minhas vísceras.

Um comentário:

  1. Vixe! Eta, fotograficazinha sem foco!

    Amo vocês!

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Comentários