segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O tempo e suas narrativas



O tempo e suas (minhas) narrativas


Escutei que chovia no tempo das minhas narrativas. Eu e minhas primaveras escondidas detrás da porta. Escamoteamos os anos com o fim de parecermos mais jovem, mas tem sido vã nossa tentativa. As três cruzes marcam o tempo com suas agulhas envenenadas e números cabalísticos. Mataram  Deus num formato humano, roubaram sua memória e os dias ficaram com cheiro de vento. Desde então, buscamos um sentido para este ser e estar no mundo, mas o que existe são apenas gotas de chuva sobre os ponteiros do relógio. Rapidamente os dias criam bolor e são arquivados em bolas de naftalina para serem queimadas na fogueira de algum silêncio. Pouco a pouco me desfaço de memórias incômodas, dias inúteis, coisas que me indignaram: os bárbaros sempre venceram em nome de qualquer deus. Eu que li clássicos e cânones, não encontro argumento que justifique o ódio humano. O destino sul-americano me bota uma navalha na garganta, sou apenas uma palavra temerosa no índice de um livro que fracassou. E não importa a penúria do país, a política seguirá tirana, atravessando meu estômago com uma barra de ferro e eu  inerte, mesmo sabendo como tudo vai acontecer: na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada...” não sabemos revidar. Nossos heróis morreram calados em busca de um tempo perdido. A parte a isso, os vilões  manejam as ditaduras nessa pátria tão injustiçada. O índio, o negro, o pobre. Uma espada forjada no fogo da astúcia e dos interesses. Uma espada que fere de morte. Assim foi, assim é. Ando cansada de tecer e destecer a mesma história. Não sei se choro minha velha juventude ou a minha nova velhice: viver é  uma ficção-real que não tem nome.

Lucilene Machado